quarta-feira, 10 de abril de 2013

Roteiro de atividades adaptado - Pré-modernismo / seminário

APERFEIÇOAMENTO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA – 2° EM
Aluno: ELIETE ALVES PIRES DE CASTRO                                      Grupo: 07
Pólo/ Cidade: TRÊS RIOS         2° ANO EM        Tutor: Elaine Santiago Campos                                              
Tarefa 1: Roteiro de Atividades Adaptado 1° CICLO/4° B (versão revisada)
TEXTO GERADOR I

O romance no Pré-Modernismo pode ser refletido por meio de um dos maiores escritores do período: Lima Barreto, jornalista, cronista, contista e romancista. Sua forma de escrever era simples e comunicativa, expondo o retrato da sociedade carioca. Um exemplo disso é a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado em folhetim, em 1911, e em livro, em 1915. “A Lição de Violão” é o primeiro capítulo da narrativa e apresenta o idealismo patriótico de seu protagonista.
A Lição de Violão
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.”
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
(...)
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
(...)
Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.
(Lima Barreto)
Vocabulário:
Bongava – procurava, buscava.
Monacal – próprio de monge.
Misantropo – que tem aversão a pessoas, que não gosta de conviver com outras pessoas.
Pedantismo – ato de ostentar cultura e erudição.
Pejadas – cheias, repletas.
Pince-nez – óculos leves que se mantêm no nariz pela pressão de uma mola.
Capadócio – que é pouco inteligente; que é impostor, trapaceiro.
Palrador – falador, tagarela.
Inçada – coberta.

ATIVIDADES DE LEITURA
QUESTÃO 1:
O estilo de Lima Barreto, fluente, descontraído, distante dos padrões de linguagem do final do século XIX, é um ponto de contato com muitos autores que conquistaram fama após a Semana de Arte Moderna, em 1922. Uma importante característica de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é a linguagem descontraída que integra frases espontâneas e naturais, comuns à linguagem oral. Em diferentes passagens da obra em estudo, podemos perceber o tom prosaico, de conversa, com que o narrador relata o cotidiano de Policarpo Quaresma. A opção em que esse traço fica evidente é:
a)      “Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo”.
b)      “Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria”.
c)      “Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo.”
d)     “Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente!”
QUESTÃO 2:
Leia atentamente o trecho abaixo:
“Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!”

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto traz ao leitor elementos próprios das relações humanas, que, longe de particularizarem o Brasil da época, estão presentes em todas as sociedades, de qualquer época. Um tema universal abordado no fragmento destacado acima é:
a)      o despreparo político
b)      a corrupção na política
c)      as relações de interesse
d)     o preconceito social
Atividade de Uso da Língua
Questão 3:

Observe atentamente o excerto abaixo:
“Esses eram os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?”
Substitua os termos destacados por outros que mantenham o sentido do texto, comentando sua importância na construção da intencionalidade discursiva do autor.
Habilidade trabalhada: Empregar marcadores discursivos (geralmente, muitas vezes...)
Resposta Comentada: É importante orientar os alunos para substituir os termos em destaque a partir da referência que produzem entre as palavras/orações e as ideias do autor. Ultimamente, poderá ser substituída por recentemente, nos últimos tempos, é um advérbio de tempo que caracteriza uma mudança nos hábitos de Policarpo; porém, poderá ser substituída por todavia, contudo, entretanto, por ser uma conjunção, cujo papel é estabelecer relação de oposição entre as orações e ideias - o que reforça o conteúdo presente no advérbio ultimamente.

Texto Gerador II

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto expressa, com muita propriedade, a preocupação social tão marcante no Pré-Modernismo. Em “Espinhos e flores”, segundo capítulo da segunda parte da obra, a estrutura e a administração pública do Rio de Janeiro são criticadas. Além disso, são reveladas as desigualdades no cenário do subúrbio carioca.
Espinhos e flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada e quer ocultar-se diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre o rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é o que entra na melhor casa.                                             (Lima Barreto)
Vocabulário:
Boulevards – palavra francesa que significa “ruas largas ladeadas de árvores”, avenida.
Vielas – ruas estreitas, becos.
Circuitos – contornos.
Brocados – tecidos de seda com desenhos em relevo realçados por fios de ouro ou prata.
Peralvilhos – indivíduos com pretensão à elegância.
Chita – tecido de algodão estampado em cores.
Mescla – agrupamento de pessoas.
Quarteirão – quadra; grupo de casas que forma um quadrilátero de que cada um dos lados dá para uma rua.

ATIVIDADE DE LEITURA
Questão 4:
Em todos os romances de Lima Barreto, percebe-se um traço autobiográfico: sua visão da realidade e experiências aparecem projetadas em alguns personagens, principalmente negros e mestiços, que sofrem o preconceito racial. Além de seu valor como romancista, Lima Barreto nos oferece um retrato perfeito dos subúrbios cariocas e de sua população, como um autêntico cronista, proporcionando-nos a oportunidade de relacionar sua obra à de autores dos movimentos anteriores.
Nos dois fragmentos apresentados, Lima Barreto, numa linguagem leve e fluente que mistura crítica, análise e humor, ironiza um comportamento muito difundido em dois períodos literários do século XIX.
a)      Identifique o comportamento ironizado.
b)       Quais os períodos literários do século XIX que cultivaram esse comportamento?
Habilidade trabalhada: Relacionar os modos de organização da linguagem às escolhas do autor, à tradição literária e ao contexto.
Reposta Comentada: “Lima Barreto é consciente de nossos verdadeiros problemas, ao mesmo tempo que critica o nacionalismo ufanista, exagerado, utópico, herdado do Romantismo. Por outro lado, o estilo de Lima Barreto, tão duramente criticado pelos ainda parnasianos de sua época, é outro ponto de contato com o Modernismo: é leve, fluente, propositadamente frouxo para os padrões do final do século XIX, aproximando-se da linguagem jornalística, estilo que faria escola entre vários autores após 1922”(Nicola) . O autor busca em estilo próprio, organizar seu romance de modo a atender às expectativas de uma classe excluída até então do crescimento cultural. Do lugar social que ocupa, tem visão privilegiada da realidade, a qual lhe permite questionar a política, a educação e as relações sociais: por isso traz para a discussão literária a vida dos subúrbios cariocas. É um patriota que defende o valor de todo o país e sua gente. Após o comentário, o professor pode, de forma bem resumida, gabaritar a questão acima, assim: a) O nacionalismo exagerado. b)  O Romantismo e o Parnasianismo.

QUESTÃO 5:
Lima Barreto foi um autor marcante na abordagem dos problemas sociais. O texto opõe a condição humilde de muitas pessoas e a afetação dos mais ricos, cercados de pompa, de beleza e do glamour de inspiração europeia. Diante disso, reflita sobre a desigualdade social e responda às seguintes questões:

  1. Como é apresentada a paisagem do subúrbio carioca?

  1. Identifique, no último parágrafo, as características relativas aos mais ricos e aos mais pobres e sua relação com o espaço do subúrbio carioca na visão de Lima Barreto.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 6:
Os marcadores discursivos são elementos linguísticos que fazem referência a partes do texto, podendo englobar o foco no conteúdo da oração ou na intenção de quem fala. Podem ser representados por expressões de modalidade, constituídas por advérbios, conjunções, verbos modais, modos do verbo, marcadores de foco, etc. No cotidiano, podem ser representados por adjuntos adverbiais como “Certamente, estudarei Pré-Modernismo hoje”, em que “certamente” está revelando um programa definido para estudar.
No capítulo “Espinhos e flores”, de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto apresenta a estrutura do subúrbio em “A topografia do local, caprichosamente montuosa, influi decerto, mais influíram, porém, os azares das construções”. Nesse trecho, os termos “caprichosamente” e “porém” podem ser substituídos, sem prejuízo de sentido, por:
(A) principalmente, também
(B) geralmente, portanto
(C) naturalmente, contudo
(D) calmamente, entretanto
TEXTO GERADOR III

Em suas crônicas, Lima Barreto trata do cotidiano, refletindo sobre política, sociedade, economia, educação, cultura, costumes sociais e, principalmente, a situação do Rio de Janeiro. Em “As enchentes”, texto escrito em 1915, o autor aborda as enchentes e sua repercussão nas comunicações, nos imóveis e no tráfego urbano. Posteriormente, comenta sobre a engenharia carioca e dá sua opinião sobre como essa questão foi tratada pelo então prefeito Pereira Passos.
As enchentes
As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.
Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.
De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral. Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!
Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.
Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.
Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
(Lima Barreto)
Vocabulário:
Tráfego – trânsito.
Square – praças, áreas (cercadas de ruas), quadras.
Procrastinar – deixar para outro dia, adiar.
Precipitações atmosféricas – expressão relativa à quantidade de chuva caída.
Fachadas – vocábulo relativo à frente do edifício.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 7:
Leia o trecho a seguir:

“De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.”


O período acima destacado pode demandar certo esforço de compreensão por parte de alguns leitores, devido ao uso de expressões e/ou elementos não tão usuais nos textos escritos atualmente. Uma maneira de diminuir esse esforço de compreensão por parte do leitor seria a substituição dessas expressões e/ou elementos por outros mais frequentes na linguagem formal contemporânea – o que tornaria o período mais claro e objetivo. Tendo em vista esse comentário, assinale a única alternativa em que a reescrita, em prol de maior clareza e objetividade, altera o conteúdo semântico original.
a)      Faz muito tempo que a engenharia do nosso município deveria ter se apoderado do dever de evitar esses acidentes urbanos.
b)       A engenharia do nosso município deveria, há muito tempo, ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
c)      Há muito tempo que a engenharia municipal deveria ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
d)     Se a engenharia do nosso município há muito tivesse se apoderado de seu dever, evitaria tais acidentes urbanos.
ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 8:
Nessa crônica, o leitor pode perceber fatos, ou seja, informações incontestáveis relativas a acontecimentos da época, e opiniões, isto é, expressões do ponto de vista do autor. Em qual opção abaixo podemos encontrar um exemplo de fato, devidamente destacado no texto?
(A) “Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia” (4º parágrafo)
(B) “Que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas” (8º parágrafo)
(C) “Essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis” (2º parágrafo)
(D) “O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos” (5º parágrafo)
TEXTO GERADOR IV

Nesse texto, João do Rio, seguindo a linha que o consagrou como cronista e repórter de sua época, vai à rua para observá-la, analisar seus tipos mais comuns, dedicando especial atenção à fala do malandro carioca. A frase “-E eu, nada”, que se repete ao longo de todo o texto, não representa a fala de um personagem específico em uma situação narrativa determinada. Trata-se, na realidade, de uma expressão de muita versatilidade, utilizada em contextos distintos e com as mais variadas significações e, por isso mesmo, admirada pelo enunciador.
O dito da “rua”
Há agora pelas ruas da cidade um novo dito do populacho. Esse dito é ouvido em cada canto e não exprime particularmente coisa alguma. É antes uma das mil faces da irreverência arrogante da canalha. O malandro para, ginga, diz mordaz:
– E eu, nada?
É a sarjeta impondo-se, é o riso despreocupado do garoto estabelecendo por troça o seu alto lá! invasor de último estado prestes a liquidar os superiores. Nada mais irônico, de chocarrice mais áspera. O cavalheiro conta uma mentira e sente a interrupção corrosiva: – E eu, nada? O cavalheiro leva uma conquista, e por trás ou de cara desnorteia-o a frase: – E eu, nada? O cavalheiro ganha ao jogo, esbraveja, tem sorte, deplora-se, elogia-se. A frase vem como o obstáculo: – E eu, nada?
E eu, nada? para todas as coisas pergunta camaleão, último grito da língua verde e do calão!
E eu amo o calão. Propriamente, cada classe social tem o seu calão como as profissões o têm, original e exclusivista. Um idioma é uma floresta extensa com uma infinita variedade de espécies botânicas. (...)
Como, porém, há calão e calão, o da canalha é para mim muito mais curioso pela dose admirável de psicologia latente e pela maneira por que se impõe. O número, a quantidade, assoberbam fatalmente e obrigam o domínio do calão canalha. Não há memória de uma frase, de um qualificativo de salão que chegue à rua sem perder a significação. A ralé invade tudo com esse turbilhão de qualificativos e de frases que tudo exprimem, e nascem, morrem, brotam em novas frases, incessantemente. Nos ditos que correm as ruas verifica a gente que as cidades ainda são verdadeiras moradas da alegria... (...)
“E eu, nada?” é uma frase que pinta um gesto, uma situação, um momento. O reverso desta formidável época de avanço não pode ser outro senão a indagação de alto lá! irônica e debochativa: “E eu, nada?” (...)
A frase pode ser a divisão de metade maior, como dizem as crianças, quando pedem a repartição de um bolo, porque a humanidade sempre se dividiu numa parte que come, e na outra que espera a vez. A que espera a vez está mesmo a dizer o “– E eu, nada?”
Frases tais valem por poemas e por tratados de sociologia. Quem a fez? ninguém sabe. Nascem do anônimo, o anônimo fá-la saltar ao ar de toda a parte, por todos os cantos, e agora, no Rio, cidade de ambições desvairadas, de riso, de troça, de luxúria, para todas as coisas, só há uma frase: “– E eu, nada?” pergunta camaleão, último grito dos sem vintém, da língua verde e do calão!
(João do Rio)
Vocabulário:
Canalha – pessoa traiçoeira, má.
Sarjeta – lugar, situação ruim.
Chocarrice – gracejo atrevido e grosseiro.
Corrosiva – aquilo que corrói, destrói.
Esbravejar – berrar, gritar.
Deplorar – lamentar, lastimar.
Calão – linguagem especial, peculiar.
ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 9:
O texto literário reflete o contexto sociocultural de sua época. No caso do Pré-Modernismo, a valorização do popular foi uma prática inédita até então e tem em João do Rio seu grande representante. Sendo assim, suas crônicas possuem um caráter mais jornalístico. Em “O dito da rua”, por exemplo, não há uma história, com início, meio e fim; mas a construção de comentários sobre um fato. Baseando-se nesse texto, responda às questões abaixo.
a)      Identifique os seguintes elementos:
Ø  Fato:
Ø  Quando o fato ocorre:
Ø  Onde o fato ocorre:
Ø  Quem está envolvido no fato:

b)      Como o enunciador se posiciona diante deste fato: de forma positiva ou negativa? Justifique sua resposta transcrevendo uma passagem do texto.
ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL
QUESTÃO 10:
Os textos lidos neste roteiro são exemplares do Pré-Modernismo brasileiro. Considerando que outras produções também se destacaram, em quatro grupos, desenvolvam uma pesquisa sobre autores da prosa pré-moderna e obras desse período: Graça Aranha – Canaã; Euclides da Cunha – Os Sertões; Lima Barreto – Triste Fim de Policarpo Quaresma; Monteiro Lobato - Urupês. Com as informações levantadas, preparem um seminário, contemplando os seguintes tópicos:
a)      Características próprias de cada autor;
b)      Obras mais relevantes de cada autor no período pré-modernista;
c)      Breve resumo da obra lida pelo grupo com análise do estilo do autor;
d)     Trabalhos artísticos e produtos culturais inspirados por essas obras - intertextualidade;
e)      Aspectos socioculturais brasileiros presentes nas obras;
f)       Relevância e/ou atualidade das obras.

Comentário: A divisão da classe em grupos, por autores, e a responsabilidade por uma obra específica do autor, pretende oportunizar à classe  uma ampla pesquisa sobre o pré-modernismo e o aprofundamento. O trabalho deverá conter uma parte escrita - com capa, introdução, dados específicos do autor, resumo da obra, contexto histórico e conclusão da equipe que deverá ser entregue ao professor para avaliação – e a apresentação para a turma e convidados, seguindo as orientações para a realização de um seminário.

Justificativa:

Foram acrescentadas duas questões uma de leitura e outra de uso da língua. A questão de Leitura visa estabelecer relação com os movimentos literários antecedentes e suas características evidenciando o estilo do autor. A questão de Uso da Língua pretende levar o aluno a empregar corretamente os marcadores discursivos, a fim de que desenvolva a habilidade de fazer escolhas semânticas adequadas ao contexto que deseja expressar. A questão de produção textual foi simplesmente adaptada para atender à produção de um seminário a partir do conteúdo proposto no 1° ciclo do bimestre. Ao pesquisar, resumir, estruturar uma apresentação de trabalho, constrói-se um conhecimento que permanece

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