FORMAÇÃO CONTINUADA SEEDUC
APERFEIÇOAMENTO EM LÍNGUA PORTUGUESA - 9° ANO
ROTEIRO DE ATIVIDADES ORIGINAL - ELIETE CASTRO
ROMANCE
Texto Gerador 2º Ciclo
Em Dom Casmurro, Machado de Assis cria o personagem Bentinho cuja memória servirá de vínculo entre a narrativa presente e a suposta verdade dos fatos. Vamos ler os dois primeiros capítulos da obra para buscar compreender melhor esse universo criado por Bentinho, tendo claro que esse resgate pela memória (flash-back) é falho porque distante do momento da escrita.
Estamos diante, de nada menos, que o ápice da maturidade de Machado de Assis como escritor. Aproveitemos a leitura da obra e tentemos desfazer, se formos capazes, a teia de desconfiança que pôs fim à relação entre Bentinho e Capitu. Por ora, ficaremos nos capítulos iniciais.
DOM CASMURRO
Machado de Assis
CAPÍTULO I - Do Título
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
– Continue, disse eu acordando.
– Já acabei, murmurou ele.
– São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.” – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
CAPÍTULO II - Do Livro
Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro.
Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de
propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um
dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei
na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra,
que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o
mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas
e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas
grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a
espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os
medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não
alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela
estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo
meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também
análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e
lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o
mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se
o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem
consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é
tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e
nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o
interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia
enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que
me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos
santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase
todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que
falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos
respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas
é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo
alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.
Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não
durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis
variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiramme, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História
dos Subúrbios, menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos,
relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares,
tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a
dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse
da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem
perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez,
inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim,
Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus
comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me
vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de
maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca
me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do
espírito. É o que vais entender, lendo.
ATIVIDADES DE LEITURA
1. Nesse romance, o autor veicula, a seu modo, por meio de seus personagens um dos mais explorados motivos da prosa literária – o triângulo amoroso. É, entretanto, pela fala do personagem-narrador que conhecemos os fatos, e é pelo filtro de sua visão que formamos o perfil psicológico de cada uma das personagens. (William Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães)
Observe que Bentinho é já um cinquentão e lança mão de suas memórias para narrar ao leitor o que ele diz ser o seu fim: “... atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.” Levando em conta o comentário de Cereja e Thereza Cochar e os dois primeiros capítulos da obra, identifique o foco narrativo e sua importância no contexto dos fatos narrados, ilustrando com passagens do texto.
Habilidade trabalhada: identificar o foco narrativo.
Resposta comentada:
O narrador-personagem conta na 1ª pessoa a história da qual participa também como personagem.
Ele tem uma relação íntima com os outros elementos da narrativa. Sua maneira de contar é fortemente marcada por características subjetivas, emocionais. Essa proximidade com o mundo narrado revela fatos e situações que um narrador de fora não poderia conhecer. Ao mesmo tempo, essa mesma proximidade faz com que a narrativa seja parcial, impregnada pelo ponto de vista do narrador.
Machado cria um narrador em 1ª pessoa corroído pelo tempo, pelo ciúme e pelas amarguras da vida. O próprio foco narrativo já é suficiente para que o leitor duvide da veracidade dos fatos narrados, tendo em vista a visão unilateral do narrador. No texto lido, passagens como “Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.” ou “A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.” comprovam essa visão singular de Bentinho que precisa ser levada em conta em toda a obra, principalmente no conflito que vivera com Capitu.
Há ainda, uma outra dimensão do narrador na obra Machadiana que, numa busca incessante de enredar o leitor, dialoga o tempo todo com seu interlocutor, é o fato da escolha de iniciar o romance com dois capítulos que explicam a escolha do título e o porquê do livro, como também muitas outras intervenções ao longo da narrativa em que busca envolvê-lo remetendo a trechos já cidados, às vezes até com perguntas e insinuações.
O fato é que Bentinho apresenta uma narração viciada por sua perspectiva parcial, unilateral e esse dado é importantíssimo para a compreensão de todos os fatos.
2. Com relação ao título dado à obra: Dom Casmurro, o narrador diz: Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão...” Justifique a escolha do título a partir do que é possível inferir do conteúdo narrado nos capítulos iniciais.
Habilidade trabalhada: Utilizar pistas do texto para fazer inferências do conteúdo.
Resposta comentada: Segundo o dicionário, casmurro é adj. e s.m. Que, ou aquele que é teimoso, obstinado; no entanto, Bentinho diz “não consultes dicionários”. O título se deve ao temperamento calado, sisudo, solitário do protagonista masculino no crepúsculo da existência; a visão amarga, doída e ressentida de quem foi machucado pela vida e por isso, vai se isolando em sua casa, pondo-se a escrever sobre sua vida.
Seria interessante preparar com os alunos um mural com as palavras cujos significados são desconhecidos ou empregados fora do usual. Os adolescentes gostam de atividades deste tipo: a cada palavra em que o significado é pesquisado, inferido e, por consequência pode vir a incorporar-se ao vocabulário, os alunos são chamados a escrever no painel: palavra e sentido no contexto, expondo o painel na classe durante o tempo de duração do trabalho com o livro.
3. No segundo capítulo, Dom Casmurro declara os motivos que o levaram a escrever o livro: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.”
O que podemos concluir a partir do trecho em destaque?
a) Bentinho não conseguiu lembrar-se de tudo o que acontecera em sua vida.
b) Bentinho se arrependeu de ter casado com Capitu, porque ela o traíra.
c) O narrador-personagem já estava velho e não teria forças para retomar sua vida e reviver as aventuras da adolescência.
d) Não seria possível recuperar os sentimentos e a alegria da adolescência porque o tempo havia passado e Bentinho já não era mais a mesma pessoa.
e) Os amigos de Bentinho impediam-no retomar a vida de outrora.
Habilidade trabalhada: Utilizar pistas do texto para fazer inferências do conteúdo.
Resposta comentada: O narrador-personagem dialogando com o leitor, a quem respeitosamente chama de senhor, conta as mudanças exteriores que fizera na esperança de reencontrar-se; numa hipérbole reconstrói a casa da Rua de Mata-cavalos, como se fosse possível com toda a reprodução recuperar o seu interior. Pelas pistas apontadas pelo próprio narrador em um trecho, pouco abaixo do destacado, podemos inferir que a resposta adequada à questão está na alternativa d. Vejamos: “(...) mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.”
Nos trechos em negrito observamos que seu problema não é ausência de memória, não é a velhice, não são os amigos, como também não refere-se a arrependimento por sua relação com Capitu ou mesmo vergonha ou rancor pela traição. Nota-se um homem que perdeu-se de si mesmo, as amarguras a que se submetera tornaram-no casmurro.
ATIVIDADES DE USO DA LÍNGUA
1. Há no trecho em estudo apenas um pequeno diálogo estabelecido entre Bentinho e um rapaz do bairro a quem conhece de vista e de chapéu. Retire do trecho os verbos dicendi e reescreva o diálogo apontando para novas possibilidades quer com discurso direto, quer com discurso indireto.
Habilidade trabalhada: Identificar o ponto de vista do narrador evidenciado na seleção dos verbos dicendi e distinguir variações nas formas de introduzir as falas dos personagens.
Resposta Comentada:
No pequeno diálogo presente no texto aparecem os verbos dizer e murmurar. Como homem cinquentão, Bentinho mostra-se realmente casmurro: homem fechado, de poucas palavras, muito voltado para si mesmo e suas preocupações. Outras redações possíveis para o diálogo poderiam ser:
Disse eu, acordando:
- Continue.
Murmurou ele:
- Já acabei.
- São muito bonitos.
Ou ainda:
Eu, acordando, lhe disse que continuasse, mas ele murmurou que já havia acabado. Então, completei dizendo que eram muito bonitos.
Pode-se ainda, propor aos alunos que pesquisem outros verbos que possam substituir com semelhança de sentido os verbos empregados pelo autor, reconstruindo o diálogo. No momento da correção, em duplas os alunos poderão representar as falas dos personagens caracterizando-os pela entonação.
- No que se refere ao tempo da história, podem-se perceber dois planos: o plano do ato de criação (presente da narrativa) e o plano da história recordada (passado da narrativa), os quais possuem certa interdependência, cruzando-se constantemente na formação temporal do discurso.
a) Identifique no texto a passagem que torna clara a afirmação acima.
b) Observe os tempos verbais empregados na construção do texto e retire do texto os verbos que evidenciam a intenção do narrador de buscar proximidade com o leitor.
Habilidade trabalhada: Reconhecer o discurso direto como meio de presentificar as falas e observar nexos lógicos no texto, empregando adequadamente os tempos e modos verbais.
Resposta comentada:
Em primeiro plano, é visível o tempo presente do narrador-protagonista que, ao longo
de horas, recorda e põe-se a registrar fatos do passado, em um vai-e-vem temporal que tece a
“liquidação” da sua vida e, ao mesmo tempo, constrói a narrativa. O objetivo do
narrador em escrever o livro é “atar as pontas da vida” através das memórias. Narrada em um
segundo plano, a história de Bento Santiago envolve décadas, percorrendo sua vida da
adolescência à maturidade, passando, de modo menos intenso, pela infância. Da infância temos apenas flashes.
No capítulo 2 fica clara a afirmação enunciada no trecho: Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. (...) Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras...? (...)
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. (...)agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo.
Com relação à alternativa b, nota-se no diálogo no trem o emprego do presente do indicativo e imperativo aproximando narrador e leitor: Continue, são, não consultes. Também no segundo capítulo outras palavras além de verbos cumprem o papel de presentificar o texto: agora, passo a escrever, antes disso, digamos , vivo, moro... São elementos que estabelecem coesão e interdependência temporal no discurso.
3. É uma das características machadianas construir um narrador que dialoga com o leitor fazendo-lhe sentir-se também um personagem, envolvendo-o na trama como alguém que o ajudará a compreender e atar suas memórias.
Essas “falas” do narrador-personagem são constantes no romance Dom Casmurro como um todo e podem ser identificadas nos dois capítulos escolhidos. Identifique-as, analisando o ponto de vista do narrador.
Habilidade trabalhada: Distinguir variações nas formas de introduzir as falas dos personagens, evidenciando o ponto de vista.
Resposta comentada:
No capítulo 1, há uma chamada do narrador avisando ao leitor que “não consulte o dicionário”, de certa forma isso informa o aspecto sisudo do narrador ao adiantar que seria perda de tempo, já que o significado de tal palavra está fora de seu emprego usual.
No capítulo 2, o narrador confessa: Pois, senhor, não consegui recompor o que foi [a casa] nem o que fui. Com essa fala percebe-se a amargura interior do narrador, o ponto de vista de quem vive de forma solitária. Por fim, a última fala, É o que vais entender, lendo. O narrador põe-se a escrever suas memórias. Partirá do tempo presente para as recordações do passado, quando adolescente na Rua de Matacavalos.
Neste romance, o ponto de vista trazido ao primeiro plano é o de Bentinho, caracterizado como o herói da narrativa e o próprio narrador dos fatos que aí acontecem. Com essa liberdade, Bentinho conduz o leitor narrando sua suspeita de infidelidade de Capitu e Escobar em relação a ele.
Essas interpelações do narrador ao leitor são feitas de forma direta interrompendo a narrativa muitas vezes com certa ironia.
ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL
1. A partir do fragmento da obra lido, motivar a leitura da obra para que ao fim seja debatida a questão polêmica que Machado de Assis deixou em aberto: Afinal, Capitu traiu o marido ou tudo não passou de um trágico engano motivado pelo ciúme doentio de Bentinho?
Após leitura e debate, propor a produção de uma ficha de leitura do livro:
Tema:
Foco narrativo:
Época:
Cenário:
Personagens:
Conflito:
Desenlace:
Num segundo momento, propor a mudança do foco narrativo ou do ponto de vista: o mesmo tema na visão de Capitu, ou de Escobar, ou de Sancha, ou de Ezequiel, ou outro personagem, à escolha dos alunos. Os alunos deverão selecionar um episódio ou capítulo e reescrevê-lo organizando um planejamento-resumo da obra em nova versão.
Ao término desta atividade escrita, pode-se propor a dinâmica do Júri Simulado para que os alunos possam absolver ou condenar Capitu com base na argumentação a partir do romance.
Habilidade trabalhada: Produzir resumos de romances lidos e testar sua inteligibilidade e planejar um texto narrativo mais longo, modificando o foco narrativo.
Resposta comentada:
A atividade proposta deve ser avaliada a partir das colocações dos alunos durante o debate em classe, uma vez que todos deverão escolher argumentos lógicos para a defesa de sua posição. Também será importante que tais argumentos debatidos sirvam de base para a organização do texto-resumo sob um novo ponto de vista e para a organização do Júri Simulado, para o qual devem ser convidadas as outras turmas, pais e comunidade.
Ao final da tarefa, os textos produzidos poderão ser reunidos numa coletânea e publicados do google docs, e o Júri Simulado pode ser filmado e enviado para o you tube e blog do Colégio.
REFERÊNCIAS WEBIBLIOGRÁFICAS
Acesso em 10/11/2011 – o site apresenta uma análise completa da obra de forma resumida.
Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas - Dossiê: oralidade, memória e escrita
PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 04 N. 02 – jul/dez 2008 O tempo como essência de Dom Casmurro - Cimara Valim de Melo – O artigo analisa os recursos temporais utilizados em Dom Casmurro, romance memorialístico de Machado de Assis, a fim de
perceber as diversas funções da temporalidade ao longo da narrativa e o modo como ela contribui à profundidade reflexiva da obra.
JUSTIFICATIVA:
Dom Casmurro é uma obra que trabalha questões muito presentes no interior do ser humano: a relação consigo mesmo, a relação com o outro, a relação com Deus. É interessante para os alunos porque utiliza a técnica do flash-back, partindo do momento presente no qual se dá a narração a partir de memórias do passado. O grande amor de Bentinho começa a florescer quando ele está com quinze anos e Capitu com catorze (idade média dos meninos e meninas do 9º ano). Creio que discutir aspectos que fortalecem ou enfraquecem as relações humanas, sejam amorosas ou não, é muito importante na formação da personalidade dos educandos. Bentinho e Capitu serão um ponto de partida.
As questões propostas buscam, sobretudo, evidenciar que o determinante para a compreensão da obra é o foco narrativo e o ponto de vista de Bentinho: unilateral, parcial, fortalecido pelo protecionismo vivido na infância e adolescência e, de certo modo, pelo sentimento de superioridade em relação à Capitu (situação social e econômica), como também pelo sentimento de incapacidade de viver livre e independente, sentimento de inferioridade: baixa autoestima. Os capítulos iniciais, embora curtos (característica machadiana), ajudam a compreender o momento presente de Bentinho, que determinam e são determinados por sua memória fragmentada.