quarta-feira, 10 de abril de 2013

Roteiro de Atividades - Crônica e conto /9° ano

EIXO BIMESTRAL: CONTO E CRÔNICA
ROTEIRO DE ATIVIDADES ORIGINAL - ELIETE CASTRO

LIXO, LIXADO

Orolando Mapanga não tinha onde cair vivo? É a impura verdade. Dele se fica sabendo que não existe pobreza de espírito. O que há é miséria sem espírito. O caso sendo universátil merece as tantas linhas. Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há no não.acontecer da vida. Lugar de viver de Orolando era na lixeira, lá no interior, primeira transversal, à direita. Com boas vistas para o mar, mesmo na vertente de um monte de desperdício. Apanhando boa brisa, mau grado os péssimos odores. Ali ele despachava os seus afazeres. Ao fim da tarde, saía a procurar restos de comida, gordurazinhas, singelas putrefacções. Raspava o fundo das latas, auscultava o ventre dos sacos. Ao ler seu constante sorriso, dir-se-ia que a felicidade é coisa encontrável mesmo na imundície. Orolando bem que defendia as vantagens do lugar:
- Aqui não chega nenhum bandido.
Lugar seguro de viver, isso ele garantia. Sossegado, também. Só no fim da madrugada o silêncio se sujava com os camiões trazendo o lixo. Mas, para ele, aquele barulho era o anunciar da mantimentação. Nunca se aproximou dos camiões. Ele não queria mostrar a sua vivência a ninguém, chamar a inveja dos outros. Essa gente quer coisas completas, cheias. A mim me basta o bocadinho da metade era o pensar dele enquanto empurrava um velho carrinho de mão pelas ruelas da lixeira. Outra vantagem era a guerra morar longe. É verdade que ali sempre se escutavam disparos. Mas era coisa da distância, lá no lugar dos citadinos. Certa noite, ao buscar adomercimento, Mapanga escutou um ronco.
- É um porco, isso.
Sabia, o campo lhe ensinara. Voz de bicho era sua sapiência. Pelo cantar de uma só galinha ele adivinhava o tamanho de toda a criação. Pelo balido do cabrito ele sabia a cor do bicho. Desta vez, porém, ao invés da doce lembrança dos campos, seus olhos se nevoaram de ódio. Afinal, havia outro ser disputando as sobras. E ali mesmo jurou morte ao intruso. Desde então se dedicou a perseguir o suíno. Saía manhã cedinho à procura dele. A lixeira nunca lhe parecera tão grande. Ele conhecia os recantos, os fedores, os charcos. Porém, não havia maneira. O bicho esburacava nos monturos, sacana, não ficava nem rasto do cheiro. Vantagem do porco é ter um focinho polivalente, dá para escavar também. Até que, numa madrugada, Orolando desapertou com um bafo que se despejava em seu rosto. Berrou, borrou-se.
- Maiuê, as hienas me comem o nariz!
Palpou o escuro, deu de mãos numa pele lisa, agarrou com força. Foi como se espremesse um saco cheio de gritos. Era o porco em aflição. Segurou a presa com força, que a bicheza é inteligente há muito mais tempo que os homens. Amarrou-lhe as pernas e ficou-se longo tempo a contemplar a berraria do prisioneiro. Primeiro, lhe chegou um sentimento que há muito  
tempo não experimentava. Ali estava um vencido implorando as clemências. Gozou aquele poder, em desconhecimento fundo de sua alma. Afinal, agora ele era proprietário, não de restos mas de uma vida inteira e recheada. Enquanto matutinava este sentimento, de quando em quando, despachava uns pontapés no bicho. Nesse dia, nem saiu a procurar abastecimento. Só ficou ali, olhando o novo habitante, escolhendo o destino a lhe aplicar. Indecidia-se morte haveria de ser. Mas o porco merecia ser comido? Deixou o despacho para mais tarde aquela era sentença que não viria do pensamento. A noite chegou, cansada do seu trabalho na outra face do mundo. Orolando Mapanga anotou o frio, juntou velhos jornais à sua volta. Mas o cacimbo lhe trouxe arrepios, esgotados que estavam seus agasalhos. Então ele se chegou ao porco, abraçou-lhe como só merece uma mulher. E, aos poucos, se foi contagiando com o quentinho de uma outra vida. No seguinte dia, ele se polemicava mais vale a fome ou o calor de uma companhia? Pelo sim pelo talvez, decidiu adiar a sentença do bicho. E quando, entre os lixos, descobriu uma velha corda, lhe deu uso de trela e levou o suíno a passear. Mesma coisa os brancos fazem com os cães. O bicho de estimação mereceu até nome téksmanta. [Texmanta nome de uma fábrica têxtil em Moçambique] Agora, quem passar pela lixeira pode ver um porco, com dignidade canina, encaminhando seu dono pelos detritos, oferecendo seu faro para a escolha das migalhas da sobrevivência. Dizem o Mapanga se vai esquecendo da língua humana, soletrando só a fonética do bicho. Afinal, vivendo na porcaria ele combina melhor com o idioma dos porcos é o parecer dos trabalhadores do lixo quando se despedem dos domínios de Orolando Mapanga.
                                                                                                                             *Mia Couto


*Mia Couto  é um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no estrangeiro. António Emílio Leite Couto ganhou o nome Mia do irmãozinho que não conseguia dizer "Emílio". Segundo o próprio autor a utilização deste apelido tem a ver com sua paixão pelos gatos e desde pequeno dizia a sua família que queria ser um deles. Nasceu na Beira, a segunda cidade de Moçambique, em 1955.



Atividades de Leitura

1. O conto é um texto curto que pertence ao grupo dos gêneros narrativos ficcionais. O que você acabou de ler é construído em torno de poucas ações, que ocorrem em um só espaço, num breve período. No conto “Lixo, lixado”:

a) A personagem Orolando Mapanga é negro?

b) Onde acontecem os fatos narrados? Como é descrito o espaço?

c) Há no conto expressões que indicam o tempo em que se passa a ação. Identifique essas expressões.

d) Levante hipóteses: Qual o tempo de duração dos fatos relatados no conto?

Habilidade trabalhada:  Localizar informações explícitas em um texto. Inferir informação implícita em um texto. Explorar contos afro-brasileiros e africanos.

Resposta Comentada: Por ser uma narrativa curta, geralmente o conto apresenta apenas um conflito, e poucos personagens. O espaço em que atuam esses personagens é restrito, limitado, e o episódio localizado passa-se num curto lapso de tempo (horas ou dias). No conto em estudo os fatos giram em torno de Orolando Mapanga e o porco Téksmanta (chamar a atenção para o nome dado ao porco e à relação que se constrói entre as personagens). Orolando, negro (cf “Mesma coisa os brancos fazem com os cães.”) vive numa lixeira em Moçambique (dedução a partir da biografia do autor - fora militante da Frente de Libertação de Moçambique, lutando pela independência de seu país entre 1964 a 1974. Ajudou a compor o hino nacional moçambicano, e trabalhou para o governo durante a guerra civil culminada no período de 1976 a 1992 e pelas  expressões: “...lá no interior, primeira transversal, à direita. Com boas vistas para o mar...”- vide localização de Moçambique no globo, ou google Earth, ou mapa da África).  Para Orolando a lixeira é um local seguro, distante da guerra (só se ouvem os disparos), ao mesmo tempo o autor descreve como local de desperdício, com péssimos odores, charcos: espaço do não.acontecer da vida.
Embora não seja determinado o tempo de forma exata, podemos inferir que as ações transcorrem em poucos dias: “Certa noite”, escutou um ronco. “Desde então decidiu perseguir o suíno. Saía manhã cedinho...” “Até que numa madrugada...”. Não há como precisar a duração dos fatos, talvez uma semana, pouco mais ou menos, por isso, o levantamento de hipóteses.
2. Nos gêneros narrativos, a sequência de fatos que mantêm entre si uma relação de causa e efeito constitui o enredo. Compõem o enredo:  introdução, complicação, clímax, desfecho.
a) Em que parágrafo encontramos o conflito (complicação) do texto Lixo, lixado.
b) Qual é o momento de maior tensão?
c) No desfecho do conto pode ocorrer a solução do conflito ou uma revelação para a personagem. No conto lido, como é organizado o desfecho?
Habilidade trabalhada: Identificar o conflito gerador do enredo e os elementos que constroem a narrativa. Identificar as características específicas do gênero em questão
Resposta Comentada: Nos contos, o narrador, por meio de descrições das personagens, do cenário, do tempo, conduz o conflito que, rapidamente, se desenvolve e caminha para seu final, não raramente surpreendendo o leitor. Narra-se uma única ação, que compreende tudo o que acontece na história: os fatos e os atos envolvendo as personagens. Em “Lixo, lixado”, o narrador-observador inicia o conto dialogando com o leitor, apresentando a personagem Orolando Mapanga, sua condição de vida sub-humana, seu pensamento, como denomina “caso universátil” que revela a gente que há no não.acontecer da vida. O conflito tem início logo no quarto parágrafo, quando Orolango identifica um novo morador na lixeira, o que lhe provoca ódio e perseguição. O porco passa a ser caçado, mas ele próprio entrega-se ao seu caçador. Nesse ponto, chegamos ao clímax: Orolando indecidia-se. Matar? Ou deixar viver?  E como disse: aquela era sentença que não viria do pensamento. No desfecho, vem a solução do conflito – o porco vive, ganha nome, torna-se animal de estimação; ao mesmo tempo há uma revelação  para a personagem: Orolando acostumado a viver sozinho descobre no porco o calor de uma companhia. Para aqueles que o veem, “vivendo na porcaria, ele combina melhor com o idioma dos porcos.”
3. Você assistirá agora a um pequeno vídeo (13’10”), denominado Ilha das Flores, ao término responda: (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=Hh6ra-18mY8)
a) Qual a correlação existente entre o conto Lixo, lixado e o vídeo Ilha das Flores?
b) Qual o objetivo do conto:
a) argumentar                  b) informar     c) entreter            d) regular comportamentos     e) persuadir
Habilidade trabalhada: Identificar o tema de um texto. Estabelecer relações temáticas entre textos diversos. Identificar a finalidade do texto.
Resposta Comentada: A intertextualidade é a propriedade de diálogo estabelecida entre os textos seja do ponto de vista temático, ou não, diálogo amplo do texto com o universo do leitor. O conto e o vídeo analisados têm em comum trabalhar com a temática da miséria humana. Pessoas sobrevivem do lixo enquanto outros desperdiçam. O conto narra a situação de Orolando como universátil (o que a faz merecer tantas linhas) e sua revolta, num primeiro momento, ao ter que dividir o espaço com um porco. É uma narrativa que, se faz críticas ao comportamento humano ambicioso e esbanjador, o faz de forma sutil, porque visa ao entretenimento. Une fato e opinião: se a lixeira, o homem, o porco são verossímeis, podemos imaginá-los dormindo juntos abraçados? Aquecendo-se? O vídeo tem uma linguagem persuasiva, enciclopédica e diferentemente do conto tem a intenção de provocar reação em quem o vê. É questionador no que diz respeito à relação opressor x oprimido. Na Ilha das Flores, os porcos e os humanos não se fazem companhia, porque hierarquicamente os porcos têm mais valor que as pessoas. Os dois textos trabalhados juntos se complementam e podem provocar um debate sobre os valores, entre eles, a liberdade: "palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda" e que pode levar à discussão do valor cultural afro-brasileiro.

Atividades de Uso da Língua
1. O título do texto é “Lixo, lixado”. Observe esses trechos:
“Orolando Mapanga não tinha onde cair vivo? É a impura verdade.”
“O que há é miséria sem espírito.”
Como você justifica o título do texto?

Habilidade trabalhada: Inferir o significado de uma palavra ou expressão.
Resposta Comentada: Homem lixado é um homem prejudicado em sua história pessoal e tramado nas suas falas, ações e sonhos. Morto antes de nascer. Alguém que tem a identidade misturada ao lixo. Orolando Mapanga foi absorvido pelo lixo, marcado, foi lixado. Perdeu o aspecto humano, soletra a fonética do bicho. Ressaltar a riqueza de neologismos presentes no texto, característica de Mia Couto. Há nesse autor um imensa capacidade de invenção, patente, por exemplo, na concepção dos nomes das personagens, e de recriar o real, numa mística africana.
2. Observe o trecho a seguir e a palavra nele destacada.
“Afinal, agora ele era proprietário, não de restos mas de uma vida inteira e recheada.”
Mais do que uma vez o narrador inicia um período com a expressão destacada. Que sentido ela dá ao texto? Assinale, depois substitua-a por outra palavra ou expressão sem perda de significado para o contexto.
a) explicação              b) conclusão               c) adição         d) oposição          e) alternância
Habilidade trabalhada: Estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios, etc. Substituir, incluir e retirar conjunções sem alterar o sentido das sequências.
Resposta Comentada: O advérbio afinal significa em conclusão, portanto, a resposta é a letra b. Poderá ser substituída sem prejuízo por enfim, finalmente, por fim.  Essa atividade possibilita a identificação de elementos responsáveis pela coesão textual, pela sequência lógica da história.
3. Nas duas construções a seguir, observe os elementos de coesão destacados. Em qual caso a conjunção coordenativa foi empregada com a ideia de contrariedade, oposição, contraste? Em qual caso a ideia que prevalece é de ressalva em relação a um fato anterior?
 “Mas era coisa da distância, lá no lugar dos citadinos.”
“Pois o que importa não é o acontecimento mas a gente que há no não.acontecer da vida.”  
Habilidade trabalhada:  Estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios, etc.
Resposta Comentada: No primeiro período a ideia que prevalece é de ressalva em relação a um fato anterior, enquanto no segundo período há a oposição de ideias expressas no período. É importante que o aluno perceba que um mesmo conector pode apresentar sentidos distintos dependendo da forma e do contexto em que são empregados.

Atividades de Produção Textual
1. “...quem passar pela lixeira pode ver um porco, com dignidade canina, encaminhando seu dono pelos detritos, oferecendo seu faro para a escolha das migalhas da sobrevivência. Dizem o Mapanga se vai esquecendo da língua humana, soletrando só a fonética do bicho. Afinal, vivendo na porcaria ele combina melhor com o idioma dos porcos é o parecer dos trabalhadores do lixo quando se despedem dos domínios de Orolando Mapanga.”
Em duplas: Dê continuidade ao texto. Você é narrador-personagem, recém-chegado à lixeira. Como será sua relação com Orolando Mapanga? Que conflito viverão? Que experiências conseguirão construir ou não? Como resolverão as disputas de espaço?
Utilize o discurso direto.
Utilização das TICs: depois de submeter o texto à apreciação da classe, as duplas deverão preparar uma apresentação no Movie Maker, associando texto – imagem – som e publicá-la no blog da turma.
Habilidade trabalhada: Estabelecer relações entre partes de um texto, identificando repetições ou substituições que contribuem para a continuidade de um texto. Usar o discurso direto. Reconhecer e usar a paragrafação e a pontuação adequadamente.
Resposta Comentada: É importante observar os elementos coesivos que estabelecerão a relação de continuidade do texto. “Os mecanismos da coesão dão conta da estruturação da sequência superficial do texto (seja por recursos conectivos ou referenciais); não são simplesmente princípios sintáticos e sim uma espécie de semântica da sintaxe textual, onde se analisa como as pessoas usam os padrões formais para transmitir conhecimentos e produzir sentidos com recursos linguísticos.”(Marcuschi). Da mesma forma, observar a pontuação do discurso direto, emprego dos verbos dicendi, divisão em parágrafos.
REFERÊNCIAS
Marcuschi, Luiz Antônio. Produção Textual, análise de gêneros e compreensão.
A obra desenvolve o estudo da produção textual com ênfase na linguística de texto de base cognitiva, a análise sociointerativa de gêneros textuais no contínuo fala-escrita, processos de compreensão textual e produção de sentido. Destaque: Primeira Parte, Processos de Produção Textual, 1.10 Critérios de textualização: visão geral (coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, intertextualidade, informatividade.
Borgatto, Ana; Bertim, Terezinha; Marchezi, Vera. Tudo é Linguagem. Ática.
No capítulo dois: Crônica e Conto, está o texto Metonímia, ou vingança do enganado, Rachel de Queiroz, Quadro I, II e III com grande quantidade de atividades. O texto é um exemplo de texto narrativo misto: um conto dentro de uma crônica.
http://www.youtube.com/watch?v=Hh6ra-18mY8 – Vídeo Ilha das Flores. Curta de 13m10s numa linguagem enciclopédica que pela repetição leva ao questionamento acerca das relações socioeconômicas, opressor x oprimido, desperdício, valores.
http://www.cdcc.sc.usp.br/cav/doc45.htm - sinopse do vídeo Ilha das Flores.
http://ciberjornal.files.wordpress.com/2009/01/mia-couto-ficha-informativa.pdf- Biografia de Mia Couto. Neste site há uma ficha informativa com a biografia do autor, seu estilo literário, alguns dados sobre Moçambique.
http://www.lumiarte.com/luardeoutono/miacouto1.html - Neste espaço há três contos de Mia Couto: A velha e a aranha;  Lixo, lixado e Os infelizes cálculos da felicidade. Todos muito bons.




EIXO BIMESTRAL: CRÔNICA E CONTO
2º CICLO
TEXTO GERADOR 1:

A piscina do tio Víctor 
Ondjaki
Para o tio Víctor que nos dava prendas-do-dia. Para a "Buraquinhos"

Quando o tio Víctor chegava de Benguela, as crianças até ficavam com vontade de fugar à escola só para ir lhe buscar no aeroporto dos voos das províncias. A maka é que ele chegava sempre a horas difíceis e a minha mãe não deixava ninguém faltar às aulas.
Então era em casa, à hora do almoço, que encontrávamos o tio Víctor. E o sorriso dele, gargalhada tipo cascata e trovão também, nem dá para explicar aqui em palavras escritas. Só visto mesmo, só uma gargalhada dele já dava para nós começarmos a rir à toa, alegres, enquanto ele iniciava umas magias benguelenses.
- Isto vocês de Luanda nunca viram - abria a mala onde tinha rebuçados, chocolates ou outras prendas de encantar crianças, mais o baralho de cartas para magias de aparecer e desaparecer o ás de ouros, também umas camisas posteradas que nós, "os de Luanda", não aguentávamos.
À noite deixávamos ele jantar e beber o chá que ele gostava sempre depois das refeições. Devagarinho, eu e os primos, e até alguns amigos da rua, sentávamos na varanda à espera do tio Víctor. É que o tio Víctor tinha umas estórias de Benguela que, é verdade, nós os de Luanda até não lhe aguentávamos naquela imaginação de teatro falado, com escuridão e alguns mosquitos tipo convidados extra.
Eu já tinha dito ao Bruno, ao Tibas e ao Jika, cambas da minha rua, que aquele meu tio então era muito forte nas estórias. Mas o principal, embora ninguém tivesse nunca visto só uma foto de admirar, era a piscina que ele disse que havia em Benguela, na casa dele:
- Vocês de Luanda não aguentam, andam aqui a beber sumo Tang!
Ele ria a gargalhada dele, nós ríamos com ele, como se estivessem mil cócegas espalhadas no ar quente da noite.
- Nós lá temos uma piscina enorme - fazia uma pausa dos filmes, nós de boca aberta a imaginar a tal piscina. - Ainda por cima, não é água que pomos lá - eu a olhar para o Tibas, depois para o Jika:
- Não vos disse?
O tio Víctor continuou assim numa fala fantasmagórica:
- Vocês aqui da equipa do Tang não agüentam..., a nossa piscina lá é toda cheia de Coca-Cola!
Aí foi o nosso espanto geral: dos olhos dos outros, eu vi, saía um brilho tipo fósforo quase a acender a escuridão da varanda e assustar os mosquitos, nós, as crianças, de boca aberta numa viagem de língua salivada, outros a começarem a rir de espanto, de repente todos gargalhámos, o tio Víctor também, e rebentámos numa salva de palmas que até a minha mãe veio ver o que se estava a passar.
Agora já ninguém me perguntava nada, falavam directamente com o tio Víctor, queriam mais pormenores da piscina e ainda saber se podiam ir lhe visitar um dia destes.
- Vai todo mundo - o tio Víctor riu, olhou para mim, piscou-me o olho. - Vem um avião buscar a malta de Luanda! Preparem a roupa, vão todos mergulhar na piscina de Coca-Cola, nós lá não bebemos desse vosso sumo Tang...
- Ó Víctor, pára lá de contar essas coisas às crianças - a minha mãe chegou à varanda.
Ele piscou-lhe o olho e continuou ainda mais entusiasmado.
- Não tem maka nenhuma, pode ir toda malta da rua, temos lá em Benguela a piscina de Coca-Cola! Os cantos da piscina são feitos de chuinga e chocolate!
Nós batemos palmas de novo, depois estreámos um silêncio de espanto naquelas quantidades de doce.
- A prancha de saltar é de chupa-chupa de morango, no chuveiro sai Fanta de laranja, carrega-se num botão ainda sai Sprite... - ele olhava a minha mãe, olhos doces apertados pelas bochechas de tanto riso, batemos palmas e fomos saindo.
Quando entrei de novo em casa, fui lá para cima dizer boa noite a todos. Passei no quarto do tio Víctor, ele tinha só uma luz do candeeiro acesa.
- Tio, um dia podemos mesmo ir na tua piscina de Coca-Cola?
Ele fez assim com o dedo na boca, para eu fazer um pouco-barulho.
- Nem sabes do máximo... No avião que vos vem buscar, as refeições são todas de chocolate com umas palhinhas que dão voltas tipo montanha-russa!, lá em Benguela há rebuçados nas ruas, é só apanhar ! e ficou a rir mesmo depois de apagar a luz, até hoje fico a perguntar onde é que o tio Víctor de Benguela ia buscar tantas gargalhadas para rir assim sem medo de gastar o reservatório do riso dele.
Fui me deitar, antes que a minha mãe me apanhasse a conversar àquela hora. No meu quarto escuro quis ver, no tecto, uma água que brilhava escura e tinha bolinhas de gás que faziam cócegas no corpo todo. Nessa noite eu pensei que o tio Víctor só podia ser uma pessoa tão alegre e cheia de tantas magias porque ele vivia em Benguela, e lá eles tinham uma piscina de Coca-Cola com bué de chuínga e chocolate também. Vi, também no tecto, o jeito dele estremecer o corpo e esticar os olhos em lágrimas de tanto rir.
Foi bonito: adormeci, em Luanda, a sonhar a noite toda com a província de Benguela.
Ondjaki nasceu em Luanda, em 1977 e vive no Brasil. Ficcionista e poeta. Escreve para o cinema e produziu um documentário sobre a cidade de Luanda (Oxalá cresçam Pitangas - histórias de Luanda, 2006). É licenciado em Sociologia. Suas obras foram traduzidas para francês, espanhol, italiano, alemão e inglês.
Disponível em:http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1877624-EI6620,00-Estorias+A+piscina+do+tio+Victor.html

ATIVIDADES DE LEITURA:
O título do texto é "A piscina do tio Víctor". Lendo esta narrativa você constata que a piscina tem características singulares. Marque a opção que mostra, de forma mais completa, o quanto a piscina é diferente:




  1. " _ Vocês da equipa do Tang não agüentam..., a nossa piscina é toda cheia de Coca-Cola"
  2. "_ A prancha de saltar é de chupa-chupa de morango, no chuveiro sai Fanta de laranja, carrega-se num bolão e ainda sai Sprite...".
  3. "No meu quarto escuro quis ver, no tecto, uma água que brilhava escura e tinha bolinhas de gás que faziam cócegas no corpo todo".
  4. [...]são todas de chocolate com umas palhinhas que dão voltas tipo montanha-russa!
2) O conto é um relato curto, com uma introdução que apresenta a história ao leitor, um desenvolvimento que apresenta fatos e personagens e uma conclusão que normalmente traz um final surpreendente, inusitado ou que faz pensar sobre algo. No caso do conto aqui analisado, não há o componente surpresa. Após localizar as partes que compõem a narrativa e que são introdução, desenvolvimento e conclusão, marque a opção onde a conclusão traz o desfecho do conto lido.

a) O tio vem de Benguela visitar a casa do sobrinho em Luanda e as crianças desejam estar com ele, com suas brincadeiras, seu jeito de ser e suas histórias.
b) As crianças ouvem as histórias contadas pelo tio Víctor e se encantam com a história da piscina de Coca-Cola a ponto de desejarem conhecer a tal piscina em Benguela.
c) O sobrinho do tio Víctor (narrador-personagem da história) adormece encantado, pensando na história do tio.
d) O desfecho estaria na conclusão de que as pessoas em Benguela são mais felizes dos que as de Angola.
Quais são os personagens principais e os secundários deste conto?
4)
Quais são os locais focalizados no conto?

5)
Após o tio falar da piscina que existiria em sua casa em Benguela, e descrevê-la, as crianças mostram-se maravilhadas com a história. É difícil estabelecer um momento que seria o mais importante do conto, uma vez que ele não tem clímax. Poderíamos pensar numa espécie de resultado, ou efeito sensorial (línguas salivadas), no curso e no final da história maravilhosa do tio Víctor. Após ouvirem a história, as crianças desejam saber mais detalhes da piscina de Coca-Cola e manifestam um desejo verossímil. O que eles desejavam saber e fazer? 

6)
O tio Víctor é apresentado como um tipo alegre e sorridente que gosta de contar histórias às crianças. São várias as passagens do texto que ilustram sua alegria. Retire uma delas e transcreva-a, abaixo.
ATIVIDADES DE USO DA LÍNGUA:

7) A piscina narrada era produto da imaginação do Tio Víctor. No texto há uma passagem que confirma esta afirmação.
a) Transcreva a passagem.
b) Sublinhe o verbo que tem o sentido de "existir" no trecho transcrito por você.

8)
Apesar de ninguém ter visto a tal piscina de Coca-cola, as crianças expressam o desejo de conhecê-la. Responda:
a) Como seria a viagem de avião, até Benguela, na descrição do tio Víctor?
b) Que palavra/ advérbio de lugar indica que o tio Víctor, além da viagem, também descreve a chegada em Benguela?
9)
O personagem e narrador da história é um menino. Ele termina a narrativa com a frase: " Foi bonito: adormeci, em Luanda, e sonhei a noite toda com a província de Benguela." Se as outras crianças também tivessem sonhado o mesmo sonho, como ficaria a frase no plural?
10) Apresentamos, a seguir, um vocabulário de apoio ao texto gerador.


Fugar - faltar às aulas /Maka- conversa, questão, disputa, caso, assunto/Rebuçados- açúcar queimado; calda de açúcar/Posteradas- com muito estilo/Cambas- amigos, companheiros/Sumo-suco/Malta- turma, grupo de amigos/Chuinga- chiclete/Bué- muito

Com base no vocabulário:

a)
Crie duas frases utilizando as palavras listadas. Utilize, ainda, uma das conjunções coordenativas, a seguir: aditiva ( e, não só, mas também), adversativas ( mas, porém, contudo, no entanto), alternativas ( ou, ora...ora), conclusiva (logo,pois,portanto), explicativa ( porque, que) na frase criada por você.

b) Substitua a conjunção sublinhada na oração por outra de igual valor: "...embora ninguém tivesse nunca visto".
ATIVIDADES DE PRODUÇÃO TEXTUAL:
Se você fosse autor e pudesse escolher um novo título para o texto lido, que título você usaria?
Imagine uma continuação para a história lida, dê um título para o seu texto que deverá ser exposto em um blog. Algumas sugestões de como continuar o texto:
- o tio Víctor resolve levar as crianças (ou apenas o sobrinho) para conhecer Benguela e planeja a viagem.
- as crianças (ou apenas o sobrinho) entram no avião descrito na história e fazem uma viagem fantástica até Benguela.
- as crianças (ou apenas o sobrinho) desembarcam em Benguela e conhecem, finalmente, a piscina. Uma das crianças se afoga na coca-cola. Morre bebendo.
13) Se pensarmos neste conto lido e no conto tradicional João e Maria (aquele em que duas crianças se perdem na floresta e encontram uma casa toda feita de doces) percebemos que entre eles há semelhanças e diferenças. 

Pesquise versões para o conto tradicional "João e Maria", dos irmãos Grimm, em livros, internet ou na sua família. Reconte a história com suas palavras.
Compare os dois textos: A piscina do tio Víctor e João e Maria. Quais são as semelhanças e as diferenças entre eles? Escreva-as.

14- Visite os espaços virtuais dos autores Ondjaki e Ferréz . O primeiro é o autor do conto africano lido. O segundo é um autor que desenvolve a temática afro-brasileira. Selecione um texto de Ferréz.

Endereço do site do autor Ondjaki (http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html)
Endereço do site e do blog do escritor Ferréz: http://www.ferrez.com.br/
http://ferrez.blogspot.com/

Após conhecer estes espaços, e em grupo, pesquise as informações que você considera mais importantes sobre os autores e anote-as. Você pode pesquisar, por exemplo:
- o porquê do nome desses autores
- suas origens/de onde eles são
- o que propõem com suas obras
- as suas principais obras
Apresentar o resultado da pesquisa, em aula, oralmente, ou por escrito, em cartazes ou murais.

Roteiro de Atividades - Romance 9° ano

FORMAÇÃO CONTINUADA SEEDUC
APERFEIÇOAMENTO EM LÍNGUA PORTUGUESA - 9° ANO
ROTEIRO DE ATIVIDADES ORIGINAL - ELIETE CASTRO
ROMANCE
                                               Texto Gerador 2º Ciclo
Em Dom Casmurro, Machado de Assis cria o personagem Bentinho cuja memória servirá de vínculo entre a narrativa presente e a suposta verdade dos fatos. Vamos ler os dois primeiros capítulos da obra para buscar compreender melhor esse universo criado por Bentinho, tendo claro que esse resgate pela memória (flash-back) é falho porque distante do momento da escrita.
Estamos diante, de nada menos, que o ápice da maturidade de Machado de Assis como escritor. Aproveitemos a leitura da obra e tentemos desfazer, se formos capazes, a teia de desconfiança que pôs fim à relação entre Bentinho e Capitu. Por ora, ficaremos nos capítulos iniciais.

DOM CASMURRO
Machado de Assis
CAPÍTULO I - Do Título
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz  aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da  lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não  fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro  vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
– Continue, disse eu acordando.
– Já acabei, murmurou ele.
– São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me  Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo.” – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e  dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.” 
Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão,  mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia,  para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo  por estar cochilando!  Também não achei  melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão  isso dos seus autores; alguns nem tanto.

CAPÍTULO II - Do Livro
Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro.
 Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que  moro é própria; fi-la construir de
propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um
dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei
na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra,
que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o
mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas
e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas
grinaldas de flores miúdas e  grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a
espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras  das estações, e ao centro das paredes os
medalhões de César, Augusto, Nero e  Massinissa, com os nomes por baixo... Não
alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela
estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo
meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também
análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e
lavadouro. Uso louça velha e mobília velha.  Enfim, agora, como outrora, há aqui o
mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se
o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem
consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é
tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e
nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o
interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia
enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que
me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos
santos. Quanto às amigas, algumas datam  de quinze anos, outras de menos, e quase
todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que
falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos
respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas
é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo
alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.
Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não
durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis
variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiramme, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História
dos Subúrbios, menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos,
relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares,
tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a
dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse
da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem
perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez,
inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim,
Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus
comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me
vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de
maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca
me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do
espírito. É o que vais entender, lendo.

ATIVIDADES DE LEITURA

1.     Nesse romance, o autor veicula, a seu modo, por meio de seus personagens um dos mais explorados motivos da prosa literária – o triângulo amoroso. É, entretanto, pela fala do personagem-narrador que conhecemos os fatos, e é pelo filtro de sua visão que formamos o perfil psicológico de cada uma das personagens. (William Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães)
Observe que Bentinho é já um cinquentão e lança mão de suas memórias para narrar ao leitor o que ele diz ser o seu fim: “... atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.”  Levando em conta o comentário de Cereja e Thereza Cochar e os dois primeiros capítulos da obra, identifique o foco narrativo e sua importância no contexto dos fatos narrados, ilustrando com passagens do texto.

Habilidade trabalhada: identificar o foco narrativo.

Resposta comentada:
O narrador-personagem conta na 1ª pessoa a história da qual participa também como personagem.
Ele tem uma relação íntima com os outros elementos da narrativa. Sua maneira de contar é fortemente marcada por características subjetivas, emocionais. Essa proximidade com o mundo narrado revela fatos e situações que um narrador de fora não poderia conhecer. Ao mesmo tempo, essa mesma proximidade faz com que a narrativa seja parcial, impregnada pelo ponto de vista do narrador.
 Machado cria um narrador em 1ª pessoa corroído pelo tempo, pelo ciúme e pelas amarguras da vida. O próprio foco narrativo já é suficiente para que o leitor duvide da veracidade dos fatos narrados, tendo em vista a visão unilateral do narrador.  No texto lido, passagens como “Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.” ou  “A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.” comprovam essa visão singular de Bentinho que precisa ser levada em conta em toda a obra, principalmente no conflito que vivera com Capitu.
Há ainda, uma outra dimensão do narrador na obra Machadiana que, numa busca incessante de enredar o leitor, dialoga o tempo todo com seu interlocutor, é o fato da escolha de iniciar o romance com dois capítulos que explicam a escolha do título e o porquê do livro, como também muitas outras intervenções ao longo da narrativa em que  busca envolvê-lo remetendo a trechos já cidados, às vezes até com perguntas e insinuações.
O fato é que Bentinho apresenta uma narração viciada por sua perspectiva parcial, unilateral e esse dado é importantíssimo para a compreensão de todos os fatos.

2.       Com relação ao título dado à obra: Dom Casmurro, o narrador diz: Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão...” Justifique a escolha do título a partir do que é possível inferir do conteúdo narrado nos capítulos iniciais.

Habilidade trabalhada: Utilizar pistas do texto para fazer inferências do conteúdo.

Resposta comentada: Segundo o dicionário, casmurro é adj. e s.m. Que, ou aquele que é teimoso, obstinado; no entanto, Bentinho diz “não consultes dicionários”. O título se deve ao temperamento calado, sisudo, solitário do protagonista masculino no crepúsculo da existência; a visão amarga, doída e ressentida de quem foi machucado pela vida e por isso, vai se isolando em sua casa, pondo-se a escrever sobre sua vida.
Seria interessante preparar com os alunos um mural com as palavras cujos significados são desconhecidos ou empregados fora do usual. Os adolescentes gostam de atividades deste tipo: a cada palavra em que o significado é pesquisado, inferido e, por consequência pode  vir a incorporar-se ao vocabulário, os alunos são chamados a escrever no painel: palavra e sentido no contexto, expondo o painel na classe durante o tempo de duração do trabalho com o livro.

3.       No segundo capítulo, Dom Casmurro declara os motivos que o levaram a escrever o livro: “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui.”
O que podemos concluir a partir do trecho em destaque?
a)      Bentinho não conseguiu lembrar-se de tudo o que acontecera em sua vida.
b)      Bentinho se arrependeu de ter  casado com Capitu, porque ela o traíra.
c)       O narrador-personagem já estava velho e não teria forças para retomar sua vida e reviver as aventuras da adolescência.
d)      Não seria possível recuperar os sentimentos e a alegria da adolescência porque o tempo havia passado e Bentinho já não era mais a mesma pessoa.
e)      Os amigos de Bentinho impediam-no retomar a vida de outrora.

Habilidade trabalhada: Utilizar pistas do texto para fazer inferências do conteúdo.

Resposta comentada: O narrador-personagem dialogando com o leitor, a quem respeitosamente chama de senhor,  conta as mudanças exteriores que fizera na esperança de reencontrar-se; numa hipérbole reconstrói a casa da Rua de Mata-cavalos, como se fosse possível com toda a reprodução recuperar o seu interior. Pelas pistas apontadas pelo próprio narrador em um trecho, pouco abaixo do destacado, podemos inferir que a resposta adequada à questão está na alternativa d.  Vejamos: “(...) mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às amigas, algumas datam  de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.”
Nos trechos em negrito observamos que seu problema não é ausência de memória, não é a velhice, não são os amigos, como também não refere-se a arrependimento por sua relação com Capitu ou mesmo vergonha ou rancor pela traição. Nota-se um homem que perdeu-se de si mesmo, as amarguras a que se submetera tornaram-no casmurro.

ATIVIDADES DE USO DA LÍNGUA

1.        Há no trecho em estudo apenas um pequeno diálogo estabelecido entre Bentinho e um rapaz do bairro a quem conhece de vista e de chapéu.  Retire do trecho os verbos dicendi e reescreva o diálogo apontando para novas possibilidades quer com discurso direto, quer com discurso indireto.

Habilidade trabalhada: Identificar o ponto de vista do narrador evidenciado na seleção dos verbos dicendi e distinguir variações nas formas de introduzir as falas dos personagens.

Resposta Comentada: 
No pequeno diálogo presente no texto aparecem os verbos dizer e murmurar.  Como homem cinquentão, Bentinho mostra-se realmente casmurro:  homem fechado, de poucas palavras, muito voltado para si mesmo e suas preocupações. Outras redações possíveis para o diálogo poderiam ser:
                Disse eu, acordando:
                - Continue.
                Murmurou ele:
                - Já acabei.
                - São muito bonitos.
Ou ainda:
                Eu, acordando, lhe disse que continuasse, mas ele murmurou que já havia acabado. Então, completei dizendo que eram muito bonitos.
                Pode-se ainda, propor aos alunos que pesquisem outros verbos que possam substituir com semelhança de sentido os verbos empregados pelo autor, reconstruindo o diálogo. No momento da correção, em duplas os alunos poderão representar as falas dos personagens caracterizando-os pela entonação.

  1. No que se refere ao tempo da história, podem-se perceber dois planos: o plano do ato de criação (presente da narrativa) e o plano da história recordada (passado da narrativa), os quais possuem certa interdependência, cruzando-se constantemente na formação temporal do discurso.
a)      Identifique no texto a passagem que torna clara a afirmação acima.
b)      Observe os tempos verbais empregados na construção do texto e retire do texto os verbos que evidenciam a intenção do narrador de buscar proximidade com o leitor.

Habilidade trabalhada: Reconhecer o discurso direto como meio de presentificar as falas e observar nexos lógicos no texto, empregando adequadamente os tempos e modos verbais.

Resposta comentada:
                Em primeiro plano, é visível o tempo presente do narrador-protagonista que, ao longo
de horas, recorda e põe-se a registrar fatos do passado, em um vai-e-vem temporal que tece a
“liquidação” da sua vida e, ao mesmo tempo, constrói a narrativa. O objetivo do
narrador em escrever o livro é “atar as pontas da vida” através das memórias. Narrada em um
segundo plano, a história de Bento Santiago envolve décadas, percorrendo sua vida da
adolescência à maturidade, passando, de modo menos intenso, pela infância. Da infância temos apenas flashes.
                No capítulo 2 fica clara a afirmação enunciada no trecho: Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. (...) Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras...?  (...)
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. (...)agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo.
                Com relação à alternativa b, nota-se no diálogo no trem o emprego do presente do indicativo e imperativo aproximando narrador e leitor: Continue, são, não consultes. Também no segundo capítulo outras palavras além de verbos cumprem o papel de presentificar o texto: agora, passo a escrever, antes disso, digamos , vivo, moro... São elementos que estabelecem coesão e interdependência temporal no discurso.

3.       É uma das características machadianas construir um narrador que dialoga com o leitor fazendo-lhe sentir-se também um personagem, envolvendo-o na trama como alguém que o ajudará a compreender e atar suas memórias.
Essas “falas” do narrador-personagem são constantes no romance Dom Casmurro como um todo e podem ser identificadas nos dois capítulos escolhidos.  Identifique-as, analisando o ponto de vista do narrador.

Habilidade trabalhada: Distinguir variações nas formas de introduzir as falas dos personagens, evidenciando o ponto de vista.

Resposta comentada:
No capítulo 1,  há uma chamada do narrador avisando ao leitor que “não consulte o dicionário”, de certa forma isso informa o aspecto sisudo do narrador ao adiantar que seria perda de tempo, já que o significado de tal palavra está fora de seu emprego usual.
No capítulo 2, o narrador confessa: Pois, senhor, não consegui recompor o que foi [a casa] nem o que fui. Com essa fala percebe-se a amargura interior do narrador, o ponto de vista de quem vive de forma solitária. Por fim, a última fala, É o que vais entender, lendo. O narrador põe-se a escrever suas memórias. Partirá do tempo presente para as recordações do passado, quando adolescente na Rua de Matacavalos.
Neste romance, o ponto de vista trazido ao primeiro plano é o de Bentinho, caracterizado como o herói da narrativa e o próprio narrador dos fatos que aí acontecem. Com essa liberdade, Bentinho conduz o leitor narrando sua suspeita de infidelidade de Capitu e Escobar em relação a ele.
Essas interpelações do narrador ao leitor são feitas de forma direta interrompendo a narrativa muitas vezes com certa ironia.

ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL

1.       A partir do fragmento da obra lido, motivar a leitura da obra para que ao fim seja debatida a questão polêmica que Machado de Assis deixou em aberto: Afinal, Capitu traiu o marido ou tudo não passou de um trágico engano motivado pelo ciúme doentio de Bentinho?
Após leitura e debate, propor a produção de uma ficha de leitura do livro:
Tema:
Foco narrativo:
Época:
Cenário:
Personagens:
Conflito:
Desenlace:
Num segundo momento, propor a mudança do foco narrativo ou do ponto de vista: o mesmo tema na visão de Capitu, ou de Escobar, ou de Sancha, ou de Ezequiel, ou outro personagem, à escolha dos alunos. Os alunos deverão selecionar um episódio ou capítulo e  reescrevê-lo organizando um planejamento-resumo da obra em nova versão.
Ao término desta atividade escrita, pode-se propor a dinâmica do Júri Simulado para que os alunos possam absolver ou condenar Capitu com base na argumentação a partir do romance.

Habilidade trabalhada: Produzir resumos de romances lidos e testar sua inteligibilidade e planejar um texto narrativo mais longo, modificando o foco narrativo.

Resposta comentada:
A atividade proposta deve ser avaliada a partir das colocações dos alunos durante o debate em classe, uma vez que todos deverão escolher argumentos lógicos para a defesa de sua posição. Também será importante que tais argumentos debatidos sirvam de base para a organização do texto-resumo sob um novo ponto de vista e para a organização do Júri Simulado, para o qual devem ser convidadas as outras turmas, pais e comunidade.
Ao final da tarefa, os textos produzidos poderão ser reunidos numa coletânea e publicados do google docs, e o Júri Simulado pode ser filmado e enviado para o you tube e blog do Colégio.

REFERÊNCIAS WEBIBLIOGRÁFICAS

http://www.unigran.br/interletras/ed_anteriores/n1/inter_estudos/manuais_didaticos.html - Acesso em 10/11/2011 - o site critica o trabalho de alguns livros didáticos que partem de fragmentos da obra Dom Casmurro com a mesma visão unilateral de Bentinho, sem levar o leitor a uma reflexão autônoma e crítica, como o quis Machado de Assis.
Acesso em 10/11/2011 – o site apresenta uma análise completa da obra de forma resumida.
Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas - Dossiê: oralidade, memória e escrita
PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 04 N. 02 – jul/dez 2008 O tempo como essência de Dom Casmurro - Cimara Valim de Melo – O artigo analisa  os recursos temporais utilizados em Dom Casmurro, romance memorialístico de Machado de Assis, a fim de
perceber as diversas funções da temporalidade ao longo da narrativa e o modo como ela contribui à profundidade reflexiva da obra.

JUSTIFICATIVA:
                Dom Casmurro é uma obra que trabalha questões muito presentes no interior do ser humano: a relação consigo mesmo, a relação com o outro, a relação com Deus. É interessante para os alunos porque utiliza a técnica do flash-back, partindo do momento presente no qual se dá a narração a partir de memórias do passado. O grande amor de Bentinho começa a florescer quando ele está com quinze anos e Capitu com catorze (idade média dos meninos e meninas do 9º ano). Creio que discutir aspectos que fortalecem ou enfraquecem as relações humanas, sejam amorosas ou não, é muito importante na formação da personalidade dos educandos. Bentinho e Capitu serão um ponto de partida.
                As questões propostas buscam, sobretudo, evidenciar que o determinante para a compreensão da obra é o foco narrativo e o ponto de vista de Bentinho: unilateral, parcial, fortalecido pelo protecionismo vivido na infância e adolescência e, de certo modo, pelo sentimento de superioridade em relação à Capitu (situação social e econômica), como também pelo sentimento de incapacidade de viver livre e independente, sentimento de inferioridade: baixa autoestima. Os capítulos iniciais, embora curtos (característica machadiana), ajudam a compreender o momento presente de Bentinho, que determinam e são determinados por sua memória fragmentada.

Roteiro de Atividades- Seminário/Debate regrado

APERFEIÇOAMENTO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA – 2° EM
Aluno: ELIETE ALVES PIRES DE CASTRO                        Grupo: 07
Pólo/ Cidade: TRÊS RIOS     2° ANO EM      Tutor: Elaine Santiago Campos                                              
Tarefa 1: Roteiro de Atividades Original 2° CICLO/4° B (versão revisada)

Texto Gerador I - Seminário
No Seminário Humor, Indivíduo e Sociedade, realizado na PUC-Rio em agosto de 2009 e promovido pela Globo Universidade em parceria com o Departamento de Psicologia da PUC-Rio, participaram nomes representativos do humor carioca, tanto entre os seus "militantes" quanto entre os que teorizam a respeito. As duas mesas do evento foram compostas pelos humoristas Mauricio Sherman (diretor), Claudio Manoel (ator e autor/Casseta), Pedro Cardoso (ator), Michel Melamed (autor/ator), Mario Marcio Bandarra (diretor), Bruno Mazzeo (autor/ator), Ney Latorraca (ator) e Claudio Paiva (autor/chargista). Representando os teóricos, Bernardo Jablonski (moderador) e os psicanalistas Daniel Kupermann e Joel Birman.
Abaixo, transcrevemos, a título de ilustração, alguns dos depoimentos que julgamos mais significativos com relação ao que foi proferido durante o seminário por parte de alguns de seus participantes. (Bernardo Jablonski)

BERNARDO JABLONSKI: Para abrir o presente evento, escolhemos uma frase de Charles Chaplin: "o humor nos permite ver o irracional através do racional. Reforça nosso instinto de conservação e preserva nossa saúde mental. Graças ao humor, as dificuldades da vida se tornam mais leves. E mais, o humor desenvolve nosso senso de medida e nos revela o absurdo que nos rodeia, tantas vezes travestido de pretensa gravidade".

MICHEL MELAMED: Eu vim pensando nos tipos de humor em que eu me vejo inserido eventualmente... e no final de tudo percebi que o humor surge muito da inadequação... Por exemplo, eu estava vindo para cá atrasado e me vendo numa série de situações de humor... porque eu estava atrasado, me olhei no espelho e meu cabelo estava ruim; e eu estava no elevador e tinha um pouco de gel... aí resolvi passar gel, mas eu nunca tinha usado gel, daí que usei a quantidade errada... e aí eu disse "danou-se", porque agora não dá mais para tirar. E isso tudo me fez refletir que existem vários tipos de humor: existe o humor físico, o humor de texto, o humor de situações, de improviso... e na verdade o humor de improviso está até ligado um pouco com isso. Grande parte dessas situações surgem deste sentimento de estar inadequado... de alguma coisa que não está encaixando, de não estar no momento certo... Acho que isso é um sentimento perpétuo, como agora. E sem dúvida o humor parte da transgressão da expectativa, da desestabilização.

PEDRO CARDOSO: Eu penso que toda palavra coloca uma questão a respeito dela mesma. Quando o título me foi transmitido, a palavra psicologia imediatamente se colocou pra mim, porque eu não sei o que é exatamente psicologia. E passei então a pensar vagamente... então digamos que psicologia é aquilo que a gente reconhece como sendo os nossos processos que resultam nas nossas ações, entre aquilo que a gente chama de razão, emoção, de sensações e como é que isso tudo se relaciona dentro de nós. [...] o ponto é: se o humor é como se tem dito aqui, um acesso ao nosso inconsciente, se o humor é uma irrupção de um conteúdo inconsciente do qual a gente não tem conhecimento até aquele momento... digamos então que estaremos sempre rindo, e é isso o humor, resultante da imperfeição do nosso funcionamento.
Então quando a nossa psicologia falha isso produz em nós misteriosamente uma sensação do cômico. Mas agora vou dizer uma coisa que está muito na contramão da ideia vigente a respeito de humor, e até da ideia que talvez tenha inspirado todo este encontro.
Rapidamente vou contar uma breve história que eu vivi, e que foi uma lição de vida pra mim, em que esta distinção ficou nítida, ainda que de forma bem sutil. Eu fazia um espetáculo em que em determinado momento o personagem perguntava para a plateia – era um personagem muito erudito que estava falando em várias línguas, e num determinado momento eu continuava o espetáculo falando só em português e perguntava: "temos aqui alguém de outros países?". Como se passava no Brasil, obviamente, só tinha brasileiros. Então ele sempre concluía dizendo "ah, só tem brasileiros!". Porém neste dia havia um rapaz que levantou lá de trás, com muita gentileza, e falou: "eu sou de Honduras!". E foi uma coisa extremamente gentil que o rapaz fez. Você imagina, o teatro é uma opressão enorme sobre a plateia, o ator ali no palco... e ele falou "eu sou de Honduras!". E eu, do palco, retruquei: "não, eu falei país!". E todo mundo riu, assim como riram aqui. Bem, o Brasil tem um certo sentimento de superioridade em relação aos outros países da America Latina por causa da força da economia, por causa do tamanho. Então a piada tinha vários espelhos de compreensão, um deles era esse. Aquela piada foi eficiente, todo mundo deu esta gargalhada que deram aqui. No entanto, ela deixou um resto de incômodo, porque eu havia constrangido aquele homem, um homem que tão gentilmente tinha se reportado a mim e eu fiz uma piada e coloquei ele numa situação ridícula perante quinhentas pessoas, porque todo mundo riu dele. Não era de mim ou do que eu estivesse falando. E aquilo deixou no espetáculo um pequeno incômodo... E o espetáculo seguiu, depois de dez minutos acabou, mas o aplauso final não foi tão vibrante quanto em outras ocasiões. Não foi vibrante porque aquela piada não era elucidativa para a peça, ela era uma mera confirmação da imobilidade do meu preconceito em relação àquele rapaz, ela não moveu o pensamento em nenhum sentido. Neste sentido esse tipo de piada, embora possa ser eficiente, ela não conduz à saúde. Aí fiquei me perguntando: como algo que é eficiente, ou seja, que produz a gargalhada, pode ainda assim não conduzir à saúde? E ainda assim, empiricamente, me ocorreu responder que aqueles que riem de algo que não os está transformando estão rindo apenas da mesmice que visa confirmar a sua ignorância a respeito de si mesmos. Aqueles que estão rindo de algo que os está transformando, ainda que seja um processo inconsciente, estão rindo de uma forma que será libertadora lá na frente.
E de que maneira o riso é provocado? E aí é o final do que eu tinha a dizer. Acho que o riso é provocado em função da vontade, é um ato da razão, não é um ato inconsciente, da determinação. É porque eu quero provocar um bom momento que eu o provoco e é porque eu não quero provocar um bom momento que eu não o provoco. Então quando os brancos senhores dos escravos ou eventualmente até nós quando rimos de alguns aspectos do Presidente ou de qualquer coisa, enfim, dependendo do que nós verdadeiramente queremos, ou seja, dependendo do afeto, nós vamos obter uma piada que seja libertadora ou uma piada que seja meramente aprisionadora, da prisão na qual nós já estamos.
Atividades de Leitura:
1. O texto gerador I é transcrição da fala de dois atores humoristas num Seminário  de Psicologia Clínica- PUC – RIO sobre Humor, Indivíduo e Sociedade.  Leia atentamente a fala de Pedro Cardoso e identifique o subtema escolhido por ele.
Habilidade trabalhada – Diferenciar tema de título e tema de subtema.
Resposta Comentada – A partir do tema que perpassa as falas envolvendo o humor e a saúde mental, discutida pela Psicologia Clínica, Pedro Cardoso escolhe explanar sobre o humor preconceituoso que, longe de fazer bem, provoca uma cadeia de mal-estar, exclusão e marginalização das pessoas que são o alvo das piadas.
2. Pedo Cardoso utiliza um episódio ocorrido em sua carreira para provocar na plateia uma reflexão acerca do tipo de piada que provoca o riso, mas não conduz à saúde porque não gera transformação nem no indivíduo, nem na sociedade, ou seja, o humor preconceituoso em vez de libertar, encarcera o povo na ignorância. Identifique o argumento que gerou essa contra-argumentação apresentada pelo humorista.
Habilidade trabalhada – Reconhecer a importância dos argumentos para a defesa e consistência dos pontos de vista defendidos.
Resposta comentada – Na fala de Michel Melamed, encontramos uma enumeração dos tipos de humor“...existem vários tipos de humor: existe o humor físico, o humor de texto, o humor de situações, de improviso... e na verdade o humor de improviso está até ligado um pouco com isso. (...) E sem dúvida o humor parte da transgressão da expectativa, da desestabilização.” Michel defende a ideia de que o humor surge da inadequação e que é um ato inconsciente, involuntário. Pedro Cardoso: “vou dizer uma coisa que está muito na contramão da ideia vigente a respeito de humor”, sensibilizando a plateia com um fato concreto e constrangedor, vivido por ele: “o ponto é: se o humor é como se tem dito aqui, um acesso ao nosso inconsciente, se o humor é uma irrupção de um conteúdo inconsciente do qual a gente não tem conhecimento até aquele momento... digamos então que estaremos sempre rindo, e é isso o humor, resultante da imperfeição do nosso funcionamento.” E conclui: “Acho que o riso é provocado em função da vontade, é um ato da razão, não é um ato inconsciente, da determinação.” “...dependendo do que nós verdadeiramente queremos, ou seja, dependendo do afeto, nós vamos obter uma piada que seja libertadora ou uma piada que seja meramente aprisionadora, da prisão na qual nós já estamos.”
Atividade de Uso da Língua
3. Observe o seguinte trecho da fala de um dos humoristas “... porque eu estava atrasado, me olhei no espelho e meu cabelo estava ruim; e eu estava no elevador e tinha um pouco de gel... aí resolvi passar gel, mas eu nunca tinha usado gel, daí que usei a quantidade errada... e aí eu disse "danou-se", porque agora não dá mais para tirar.”
Como você faria a reescritura do trecho acima, eliminando as marcas da oralidade para transformá-lo um texto mais objetivo e claro?
Habilidade trabalhada – Empregar adequadamente a linguagem e os fatores de textualidade como clareza e objetividade.
Resposta comentada – Comente com os alunos as características do gênero seminário, a exposição se faz num nível formal, mas caracteriza uma conversação em que o expositor fala para uma plateia. Em evidência é comum que o texto fique carregado de marcadores orais. O trecho poderá ser reescrito da seguinte forma:... porque eu estava atrasado, olhei-me no espelho e constatei que meu cabelo estava desarrumado. Eu estava no elevador e trazia comigo um pouco de gel, resolvi passá-lo, embora nunca o tenha usado... daí, utilizei a quantidade errada. Então, eu disse: “danou-se”, porque já não seria possível tirá-lo. Incentive os alunos a buscarem outras formas de reescritura.

Texto Gerador II – Debate Regrado
O texto gerador II é a transcrição de parte do debate realizado pela TV Globo com os candidatos à Prefeito de São Paulo: José Serra e Fernando Haddad, na noite de sexta-feira, 26/10/2012. O trecho selecionado faz parte do primeiro bloco, terceira pergunta (com resposta, réplica e tréplica).
Mediador César Tralli: Boa noite. São 23h03, nós falamos ao vivo dos estúdios da TV Globo, no bairro do Brooklin aqui em São Paulo, zona sul da capital. Começa agora o último debate entre os candidatos a prefeito de São Paulo. Uma oportunidade para você conhecer melhor as propostas de quem pretende administrar a nossa cidade pelos próximos quatro anos. (...)
(Em seguida, são apresentadas as regras para o debate)
Terceira Pergunta
Fernando Haddad: Hoje as manchetes dos jornais dão conta de algo que a população já sente na pele, um aumento brutal da criminalidade. O número de assassinatos na cidade de São Paulo em setembro foi de 144, o dobro de setembro do ano passado. Eu queria saber se você como prefeito, governador, se sente responsável de alguma maneira por isso ou se os seus sucessores têm alguma responsabilidade e o que pretende fazer pela segurança?
José Serra: O que eu devo dizer pela segurança é o seguinte, como prefeito eu vou da batalha, vou ser um prefeito ativista para ajudar o Governo do Estado na tarefa da segurança. Primeiro, vamos contratar mais PMs na operação delegada, mais quatro mil PMs nas ruas.
Segundo, vamos multiplicar ainda mais as câmeras de segurança por toda a cidade, que eu comecei quando prefeito, que comecei quando governador. Nós vamos se aliar ao Governo do Estado nessa operação, que é uma operação fundamental para a segurança da cidade.
Terceiro, nós vamos cuidar também de melhorar a iluminação. Eu quero dizer aqui, César, dentro de um ano, nós teremos a cidade totalmente bem iluminada. Nas ruas que não tiverem luz ou na melhoria da qualidade das luzes.
Quarto ponto: Guarda Civil metropolitana. Nós vamos reforçar a guarda, inclusive com mais efetivos. Pondo gente de fora para fazer as funções burocráticas, contratando gente de fora para liberar o guarda civil que já é treinado para o trabalho na rua, vai ser um trabalho de cooperação o tempo inteiro. Porque segurança não tem partido, nós temos que cooperar, temos que trabalhar para trazer paz para a nossa Cidade.

Fernando Haddad: Bom, o candidato não respondeu a que atribui a escalada da violência no último ano. Dobrou o número de assassinatos na cidade de São Paulo. 144 mortes apenas em setembro. Se é possível iluminar a cidade em um ano, tiveram oito para fazer! Não fizeram nada! A cidade está mal iluminada.
A guarda civil e a operação delegada estão restritas ao combate ao comércio ambulante, inclusive combate ao comércio ambulante regular, pessoas com deficiência foram reprimidas, tanto pela guarda civil como pela operação delegada. Nós não, nós vamos investir na polícia comunitária, vamos reorientar e investir em programas sociais para a juventude que está abandonada na cidade de São Paulo.

José Serra: Como se vê a respeito de segurança é mais fácil criticar do que propor, porque efetivamente Fernando Haddad não propôs nada, mas nós propusemos e vamos levar à prática. Tem outra questão, a do crack. O crack está por trás da aceleração dos crimes. Se faz pouco no Brasil pelo combate ao contrabando de armas e de drogas, mas eu não vou ficar brigando com o Governo Federal.
Junto com o governo do Estado nós vamos atrair o governo federal para que o governo federal se envolva no combate ao contrabando e ao tráfico, que são prerrogativas dele, dentro da cidade de São Paulo e no resto do país. Com isso, nós vamos juntar forças para melhorar a condição de segurança.

Atividade de Leitura
4. Conforme sorteio previamente combinado, nesta terceira pergunta Haddad questiona Serra.  Identifique o tema abordado por ele em sua pergunta.

Habilidade trabalhada: Diferenciar tema de título e tema de sub-tema.
Resposta comentada: Haddad propõe a discussão sobre Segurança Pública e o problema da violência partindo de um dado estatístico concreto: o dobro de assassinatos ocorridos na cidade no mês de setembro em comparação com o ano anterior. Esse é o tema da questão. Na verdade, Haddad pretende encurralar Serra, apresentando logo em seguida outros dados para comprovar sub-temas inerentes à questão: medidas preventivas não adotadas por ele e seus sucessores, desmobilização para enfrentar problemas reais de violência urbana por parte da guarda...
Atividades de Uso da Língua
5. Haddad na réplica argumenta que Serra não respondeu à pergunta feita. Que tipo de contra-argumento utilizou para contestar o adversário?
Habilidade trabalhada: Diferenciar os tipos de argumentos: tese, argumento e contra-argumento.
Resposta comentada: Em sua réplica contra-argumenta com Serra, interpelando-o por não ter respondido  seu questionamento e apresentando novas provas concretas que, sob seu ponto de vista são a causa da escalada da violência no último ano: a falta de iluminação pública, a inoperância da guarda civil na manutenção da Segurança Pública. Seria interessante reforçar com os alunos os tipos de argumentos que poderão ser apresentados também como contra-argumentos, no caso de Haddad com o intuito de persuadir o eleitor a compreender que os dados estatísticos provam a tese sugerida na pergunta: de que a violência cresceu por negligência de Serra e seus sucessores.
6. Tendo sua resposta desqualificada pelo adversário na réplica, o que Serra busca reconstruir na tréplica? Que argumentos você teria utilizado para responder a pergunta de Haddad?
Habilidade trabalhada: Utilizar os procedimentos de reformulação e refutação para construção da argumentação.
Resposta comentada: Em debates políticos que antecedem eleições, os candidatos estão mais interessados em prometer “saídas” para convencer o eleitor e atacar as propostas dos adversários. Assim fez Haddad, assim fez Serra. Na tréplica, Serra levanta o problema do Crack (tráfico) e do contrabando de armas que são responsabilidade do governo federal (partidário de Haddad). O aluno deverá ser orientado a reformular a resposta à pergunta argumentando que não existe um culpado, e que procurar culpados não resolve o problema; existem esferas de governo e compromissos de cada um que devem ser implementados para que a violência seja controlada principalmente numa cidade como São Paulo com 40 milhões de habitantes, com abertura para o mundo (aeroportos, portos, vias rodoviárias e ferroviárias) que facilita o tráfico e o contrabando de armas, e com isso o aumento da criminalidade. Deveria apresentar estatísticas que mostram que São Paulo oferece emprego e por isso abriga imigrantes internos e externos. O professor pode levar o aluno ao laboratório de informática e pesquisar sobre a cidade de São Paulo para melhor organizar os argumentos.
Atividade de produção de texto
7. Após ter estudado o Pré-modernismo, o Seminário e o Debate Regrado, em grupos de quatro alunos, vocês deverão preparar um seminário para discutir as questões propostas pelos autores pré-modernistas: Graça Aranha, Monteiro Lobato, Lima Barreto e Euclides da Cunha.
O tema: Conflitos sociais nos autores pré-modernistas.
a)      Características próprias de cada autor;
b)      Obras mais relevantes de cada autor no período pré-modernista;
c)      Breve resumo da obra lida pelo grupo com análise do estilo do autor;
d)      Trabalhos artísticos e produtos culturais inspirados por essas obras - intertextualidade;
e)      Aspectos socioculturais brasileiros presentes nas obras;
f)       Relevância e/ou atualidade das obras.                                         
Habilidade Trabalhada: pesquisar sobre autores e obras do período pré-modernista e preparar um seminário/debate regrado para apresentação, utilizando recursos midiáticos e infográficos, citação de fontes e tempo para questionamentos do público.
Comentário: Orientar os alunos para uma ampla pesquisa sobre o período literário, cada autor específico (sortear um por grupo) e sua obra. Enfatizar que, num seminário o que mais pontua é a apresentação. O trabalho deverá conter uma parte escrita - com capa, introdução, dados específicos do autor, resumo da obra, contexto histórico e conclusão da equipe que deverá ser entregue ao professor para acompanhamento e avaliação. Ao término das apresentações, a equipe deverá propor assuntos relevantes retratados na obra, ainda presentes na realidade atual, para que a classe participe debatendo-os, pois é uma forma de envolver toda a turma no trabalho desenvolvido por cada equipe. Sendo assim, teremos sempre uma equipe de mediadores e três equipes de debatedores. O professor fará interferências sempre que necessário.
Justificativa: Os textos geradores escolhidos para organização deste Roteiro se devem à fácil compreensão da linguagem (Humor I) e atualidade das questões levantadas (debate político, assunto – violência em São Paulo). Ambos são de interesse dos alunos.
Bibliografia:
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar – Texto e Interação – Capítulo IV – Expondo e Persuadindo – neste capítulo os autores abordam o debate orientado.
Idem, Literatura Brasileira – no capítulo 25, unidade 3, os autores abordam os gêneros seminário e debate.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652010000100013 – acessado em 15/11/2012 – transcrição do seminário sobre Humor I


http://www1.folha.uol.com.br/poder/1176189-leia-a-transcricao-do-debate-da-tv-globo-entre-candidatos-a-prefeito-de-sp.shtml acesso em 15/11/2012 - transcrição do debate entre candidatos a prefeito de São Paulo, organizado pela TV Globo.