quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poesia no Parnasianismo - Fundação Cecierj

ROTEIRO DE ATIVIDADES
- 3º bimestre da 2ª Série do Ensino Médio: 1º CICLO -

POESIA NO PARNASIANISMO

TEXTO GERADOR I

O primeiro texto gerador desse ciclo, As pombas, é de autoria de Raimundo Correia. A obra desse poeta normalmente remete a temas como a natureza, a perfeição formal dos objetos e a cultura clássica.

As pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

(Raimundo Correia)

Vocabulário:
Céleres – Velozes.
Nortada – Vento frio e/ou áspero que sopra do norte.
Revoada – Bando de aves que revoam.
Ruflar – Agitar as asas para voar.



ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 1
Os poetas parnasianos tinham como um de seus preceitos básicos o culto da forma. Por essa razão, cultivavam o soneto: composição poética de 14 versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, apresentando métrica regular – normalmente versos alexandrinos (12 sílabas poéticas) e decassílabos (10 sílabas poéticas) – e rima.

A) Sobre o poema “As pombas”, assinale a alternativa correta:

(a)    É um soneto de versos alexandrinos, com as rimas ABBA (nos quartetos) e CCD/EED (nos tercetos).
(b)   É um soneto de versos decassílabos, com as rimas ABBA (nos quartetos) e CCD/EED (nos tercetos).
(c)    É um soneto de versos alexandrinos, com as rimas ABBA (nos quartetos) e CCD (nos tercetos).
(d)   É um soneto de versos decassílabos, com as rimas ABBA (nos quartetos) e CCD (nos tercetos).


B) Muitos sonetos parnasianos cultivaram a rima rica, ou seja, rimas entre palavras de classes gramaticais diferentes. No poema “As pombas”, temos um exemplo de rima rica na seguinte alternativa:

(a)    soltam/voltam
(b)   abotoam/voam
(c)    pombais/mais
(d)   nortada/revoada


ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA

QUESTÃO 2
“As pombas” é um soneto terminado com “chave de ouro”, isto é, um verso final bem escrito, que procura condensar uma ideia e arrematar o poema com um belo efeito. A figura de linguagem que contribuiu para a construção do efeito “chave de ouro” no referido poema foi:

(a)    antítese
(b)   elipse
(c)    anáfora
(d)   hipérbato



TEXTO GERADOR II

O segundo texto gerador do ciclo intitula-se A um poeta. Seu autor, Olavo Bilac, é considerado o “ourives da linguagem” devido a sua preocupação com a forma poética.

A um poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

(Olavo Bilac)

Vocabulário:
Artifício – Recurso engenhoso.
Beneditino – Aquele que segue as regras de São Bento, fundador do sistema monástico cristão. Monge da Ordem de São Bento.
Claustro – Ambiente de isolamento.
Estéril – Improdutivo.
Suplício – Aflição.
Turbilhão – Movimento.


ATIVIDADE DE LEITURA

QUESTÃO 3

Leia o fragmento a seguir:

“A busca da objetividade temática e o culto da forma são as mais importantes características do Parnasianismo. Os poetas parnasianos opunham-se ao individualismo, ao sentimentalismo e ao subjetivismo românticos, e procuraram voltar sua poesia para temas que consideravam mais universais, como a natureza, a história, o amor, os objetos inanimados, além da própria poesia. Essa poética da impessoalidade era reforçada pelo gosto da descrição e do rigor formal. O ideal da "arte pela arte" resultou em acentuada preocupação com a versificação e a metrificação, pois se acreditava que a Beleza residia também na forma.” (Disponível em: http://www.itaucultural.org.br)

Em “A um poeta”, Olavo Bilac aproxima o ofício de ser poeta ao ofício de um escultor: ambos buscam moldar, perfeitamente, a forma de seus objetos estéticos. Tendo por base a leitura do poema de Olavo Bilac e do fragmento acima, responda:

a)      Explique por que o último verso da 1ª estrofe é representativo do ideal da “arte pela arte”.

b)      Destaque um verso no qual o eu-lírico exteriorize a ideia de que o esforço empreendido na busca pela forma perfeita não pode transparecer no resultado final da poesia.


ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA

QUESTÃO 4
Termos acessórios da oração são aqueles que, embora não integrem necessariamente a estrutura básica da oração, contribuem por informarem características ou circunstâncias relativas a um substantivo, pronome ou verbo. O aposto é um dos termos acessórios da oração, que tem por função explicar, esclarecer, resumir ou comentar algo sobre um termo de natureza nominal. Em “A um poeta”, destaque um aposto e diga o nome ao qual ele está relacionado.


TEXTO GERADOR III

O poema seguinte é da autoria de Alberto de Oliveira, um dos grandes representantes do Parnasianismo. Através deste poema, será possível aprofundar as relações das características da estética ao seu contexto social e histórico.


O Ídolo
                                  
Sobre um trono de mármore sombrio,
Em templo escuro, há muito abandonado,
Em seu grande silêncio, austero e frio
Um ídolo de gesso está sentado.

E como à estranha mão, a paz silente
Quebrando em torno às funerárias urnas,
Ressoa um órgão compassadamente
Pelas amplas abóbadas soturnas.

Cai fora a noite - mar que se retrata
Em outro mar - dois pélagos azuis;
Num as ondas - alcíones de prata,
No outro os astros - alcíones de luz.

E de seu negro mármore no trono
O ídolo de gesso está sentado.
Assim um coração repousa em sono...
Assim meu coração vive fechado.

(Alberto de Oliveira)


Vocabulário:
Alcíones – Estrela de terceira grandeza, a mais brilhante das Plêiades.
Austero – Severo.
Pélago(s) – Abismo marítimo; pego. 2. mar alto.
Silente – Silencioso, calado, que não faz barulho.
Soturno – Assustador; amedrontador; apavorante; terrível.


Atividade de Leitura

Questão 5
A Belle Époque pode ser considerada a época dourada das elites europeias. Os cabarés, os cafés parisienses e o can-can (dança típica de cabaré) compõem a imagem da riqueza e modernidade da França no final do século XIX. O processo de urbanização ocorrido na cidade do Rio de Janeiro tomou a sofisticação francesa por modelo, como comprovaram as construções arquitetônicas. Além disso, o comportamento do brasileiro, o modo de falar usando muitas expressões francesas e hábitos como tocar piano também demonstraram a força dessa influência. O Parnasianismo, alheio às questões da realidade, representou a tradução poética de um período de euforia e de relativa tranquilidade social, no qual a forma se sobrepôs às ideias.

Sobre a poesia criada na Belle Époque brasileira, pesa a acusação de “afetação pelo preciosismo da linguagem e da forma, buriladas como preciosa ourivesaria e superficialidade pela recusa das questões político-sociais de seu tempo” (BARROS, Fernando Monteiro de. Parnasianismo brasileiro: Conservador e transgressor. Fólio – Revista de Letras. Vitória da Conquista. v.3, n. 1. Jan/ Jun. 2011. p. 22).

Retire da 1ª estrofe do poema de Alberto de Oliveira um verso que comprove a afirmação e explique por quê.


ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA

Questão 6
Segundo Rocha Lima, figuras de linguagem são formas de expressar o pensamento ou o sentimento “com energia e colorido, a serviço das intenções estéticas de quem as usa”. Representam, portanto, recursos linguísticos explorados principalmente pelos escritores, que buscam se comunicar com vivacidade e beleza.
        
A) Percebemos, na estrofe abaixo, a presença da figura de linguagem comparação.  Comparação ou símile é uma correlação de ideias em que se utilizam elementos comparativos (como, conforme, tal como etc).  Releia a estrofe destacada abaixo e assinale a opção em que se identifica o emprego dessa figura:

“E como à estranha mão, a paz silente
Quebrando em torno às funerárias urnas,
Ressoa um órgão compassadamente
Pelas amplas abóbadas soturnas”.

(a) “Jorra do teu olhar um rio luminoso”. (Olavo Bilac)
(b) “Enquanto mandas as ninfas amorosas grinaldas nas cabeças pôr de rosas.” (Camões)
(c) “Qual um filósofo, o poeta vive a procurar o mistério oculto das cousas.”
(d) “Vi claramente visto o lume vivo.” (Camões)
(e) “Astros, noites tempestades,
      Rolai das imensidades!”     (Castro Alves)


B) A poesia parnasiana sustenta-se enquanto forma bem lapidada, cuja matéria-prima é um vocabulário raro, numa sintaxe elaborada. Em busca do rebuscamento, os poetas lançam mão de inúmeros recursos estilísticos, dentre os quais as figuras de linguagem. Identifique a figura de linguagem presente neste verso do poema “O ídolo”:

“Assim um coração repousa em sono...”

(a) hipérbole, porque há um exagero de expressão.
(b) eufemismo, porque há uma suavização de ideia.
(c) metonímia, porque se substitui uma parte pelo todo.
(d) anáfora, porque há uma repetição de palavras.
(e) antítese, porque há palavras opostas justapostas.


C) Na busca da perfeição formal, o poeta parnasiano usa o ritmo, a métrica, a versificação. Para criar imagens sugestivas, ele lança mão de figuras de linguagem. Com bastante descritivismo, Alberto de Oliveira nos remete a uma imagem, nesta estrofe abaixo, criada a partir de uma sequência de:

“Cai fora a noite - mar que se retrata
Em outro mar - dois pélagos azuis;
Num as ondas - alcíones de prata,
No outro os astros - alcíones de luz.”

(a) metonímias, porque se substitui parte de uma idéia pelo todo, pelo conjunto.
(b) metáforas, porque há comparações feitas de forma indireta.
(c) antíteses, porque há ideias opostas.
(d) sinestesias, porque há misturas de sensações.
(e) catacreses, porque há esvaziamento do sentido de uma palavra em detrimento a outra.




TEXTO COMPLEMENTAR

O poema Os sapos, da autoria de Manuel Bandeira, lido durante a Semana de Arte Moderna, ridiculariza a excessiva preocupação formal dos parnasianos.



abilidades do eixo lda graúna 

Os Sapos

(...)

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

(...)
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

(...)

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

(...)

Manuel Bandeira

Vocabulário:
Assomo – Sinal.
Cancioneiro – Coleção de canções, coleção de poesias líricas.
Cognatos – Palavras que apresentam o mesmo radical. Ex.: pedra, pedreiro. 
Lavor – Trabalho.
Perau – Declive rápido do fundo do mar ou de um rio, junto à costa ou à margem.


AtividadeS de Leitura

Questão 7
Uma tendência forte do primeiro momento do Modernismo foi fazer o poema-piada, modalidade em que se enquadra o poema “Os sapos”. Manuel Bandeira satiriza o movimento parnasiano, criticando a preocupação excessiva com o aspecto formal. Essa foi outra grande tendência do movimento modernista: criticar a literatura parnasiana, que os modernistas consideravam ultrapassada.
A partir das estrofes destacadas, reconheça as características da poética parnasiana que eram tão criticadas pelos poetas modernistas.

A)

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.


B)

“Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.”

C)

“Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.”


Questão 8
Segundo Alfredo Bosi, o movimento modernista pretendia “mover as águas estagnadas da Belle Époque” e denunciar o atraso cultural do país. A Belle Époque foi um período em que se acreditava no progresso e na infinitude das riquezas e dos benefícios gerados por ele.
O poema Os sapos de Manuel Bandeira sintetiza esse objetivo de mexer nas “águas estagnadas”. Para isso, o poeta usa a imagem do sapo-tanoeiro que representaria os poetas parnasianos e sua preocupação excessiva com a rima e a métrica. Para os modernistas, esse rigor com a linguagem distanciaria a poesia do povo, como revela o final do poema.
Releia as duas últimas estrofes do poema e explique de que forma esses versos confirmam a intenção crítica:

Text Box: “Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é”



ATIVIDADES DE PRODUÇÃO TEXTUAL

QUESTÃO 9
Paráfrase “é a reafirmação, em palavras diferentes, do mesmo sentido de uma obra escrita. Uma paráfrase pode ser uma afirmação geral da ideia de uma obra como esclarecimento de uma passagem difícil. Em geral ela se aproxima do original em extensão” (SANT’ANNA, p. 17).

Agora, você produzirá uma paráfrase a partir de um dos poemas parnasianos que você leu.


QUESTÃO 10
Originalmente, o soneto (pequeno som), como o próprio nome sugere, era composto para ser cantado. As características estruturais e prosódicas dessa composição poética foram aproveitadas pela banda brasileira Kid Abelha, que musicou o poema parnasiano “Via Láctea” (soneto XIII), de Olavo Bilac.
Outro famoso caso de transposição poema/música se deu com o poema “As pombas”, de Raimundo Correia, musicado por Chiquinha Gonzaga, compositora e maestrina carioca nascida no final do século XIX. O soneto de Bilac e a versão musicada pelo grupo Kid Abelha podem ser observados a seguir.

 

Via Láctea- Soneto XIII

 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso" Eu vou direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de encanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um páleo aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem quando estão contigo?".

E eu vos direi "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(Olavo Bilac)

 

Ouvir Estrelas

 

Direi ouvir estrelas
Certo perdestes o senso
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouvi-las
Muita vez desperto
E abro as janelas,
Pálido de espanto
Enquanto conversamos
Cintila via láctea
Como um pálido aberto
E ao vir do sol,
Saudoso e em pranto
Inda
as procuro pelo céu deserto
Que conversas com elas
O que te dizem
Quando estão contigo
Ah... Amai para entendê-las
Ah... Pois só que ama pode ouvir estrelas

(Kid Abelha)
Vocabulário:
Cintila – Resplandece.
Páleo – Antigo, velho.
Tresloucado – Louco, desvairado.


Agora é a sua vez! Escolha um dos sonetos que compõem este Roteiro de Atividades para, em seguida, musicá-lo.

Roteiro de atividades adaptado - Pré-modernismo / seminário

APERFEIÇOAMENTO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA – 2° EM
Aluno: ELIETE ALVES PIRES DE CASTRO                                      Grupo: 07
Pólo/ Cidade: TRÊS RIOS         2° ANO EM        Tutor: Elaine Santiago Campos                                              
Tarefa 1: Roteiro de Atividades Adaptado 1° CICLO/4° B (versão revisada)
TEXTO GERADOR I

O romance no Pré-Modernismo pode ser refletido por meio de um dos maiores escritores do período: Lima Barreto, jornalista, cronista, contista e romancista. Sua forma de escrever era simples e comunicativa, expondo o retrato da sociedade carioca. Um exemplo disso é a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, publicado em folhetim, em 1911, e em livro, em 1915. “A Lição de Violão” é o primeiro capítulo da narrativa e apresenta o idealismo patriótico de seu protagonista.
A Lição de Violão
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.”
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
(...)
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
(...)
Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.
(Lima Barreto)
Vocabulário:
Bongava – procurava, buscava.
Monacal – próprio de monge.
Misantropo – que tem aversão a pessoas, que não gosta de conviver com outras pessoas.
Pedantismo – ato de ostentar cultura e erudição.
Pejadas – cheias, repletas.
Pince-nez – óculos leves que se mantêm no nariz pela pressão de uma mola.
Capadócio – que é pouco inteligente; que é impostor, trapaceiro.
Palrador – falador, tagarela.
Inçada – coberta.

ATIVIDADES DE LEITURA
QUESTÃO 1:
O estilo de Lima Barreto, fluente, descontraído, distante dos padrões de linguagem do final do século XIX, é um ponto de contato com muitos autores que conquistaram fama após a Semana de Arte Moderna, em 1922. Uma importante característica de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é a linguagem descontraída que integra frases espontâneas e naturais, comuns à linguagem oral. Em diferentes passagens da obra em estudo, podemos perceber o tom prosaico, de conversa, com que o narrador relata o cotidiano de Policarpo Quaresma. A opção em que esse traço fica evidente é:
a)      “Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo”.
b)      “Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria”.
c)      “Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo.”
d)     “Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente!”
QUESTÃO 2:
Leia atentamente o trecho abaixo:
“Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!”

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto traz ao leitor elementos próprios das relações humanas, que, longe de particularizarem o Brasil da época, estão presentes em todas as sociedades, de qualquer época. Um tema universal abordado no fragmento destacado acima é:
a)      o despreparo político
b)      a corrupção na política
c)      as relações de interesse
d)     o preconceito social
Atividade de Uso da Língua
Questão 3:

Observe atentamente o excerto abaixo:
“Esses eram os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?”
Substitua os termos destacados por outros que mantenham o sentido do texto, comentando sua importância na construção da intencionalidade discursiva do autor.
Habilidade trabalhada: Empregar marcadores discursivos (geralmente, muitas vezes...)
Resposta Comentada: É importante orientar os alunos para substituir os termos em destaque a partir da referência que produzem entre as palavras/orações e as ideias do autor. Ultimamente, poderá ser substituída por recentemente, nos últimos tempos, é um advérbio de tempo que caracteriza uma mudança nos hábitos de Policarpo; porém, poderá ser substituída por todavia, contudo, entretanto, por ser uma conjunção, cujo papel é estabelecer relação de oposição entre as orações e ideias - o que reforça o conteúdo presente no advérbio ultimamente.

Texto Gerador II

Em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto expressa, com muita propriedade, a preocupação social tão marcante no Pré-Modernismo. Em “Espinhos e flores”, segundo capítulo da segunda parte da obra, a estrutura e a administração pública do Rio de Janeiro são criticadas. Além disso, são reveladas as desigualdades no cenário do subúrbio carioca.
Espinhos e flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada e quer ocultar-se diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre o rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é o que entra na melhor casa.                                             (Lima Barreto)
Vocabulário:
Boulevards – palavra francesa que significa “ruas largas ladeadas de árvores”, avenida.
Vielas – ruas estreitas, becos.
Circuitos – contornos.
Brocados – tecidos de seda com desenhos em relevo realçados por fios de ouro ou prata.
Peralvilhos – indivíduos com pretensão à elegância.
Chita – tecido de algodão estampado em cores.
Mescla – agrupamento de pessoas.
Quarteirão – quadra; grupo de casas que forma um quadrilátero de que cada um dos lados dá para uma rua.

ATIVIDADE DE LEITURA
Questão 4:
Em todos os romances de Lima Barreto, percebe-se um traço autobiográfico: sua visão da realidade e experiências aparecem projetadas em alguns personagens, principalmente negros e mestiços, que sofrem o preconceito racial. Além de seu valor como romancista, Lima Barreto nos oferece um retrato perfeito dos subúrbios cariocas e de sua população, como um autêntico cronista, proporcionando-nos a oportunidade de relacionar sua obra à de autores dos movimentos anteriores.
Nos dois fragmentos apresentados, Lima Barreto, numa linguagem leve e fluente que mistura crítica, análise e humor, ironiza um comportamento muito difundido em dois períodos literários do século XIX.
a)      Identifique o comportamento ironizado.
b)       Quais os períodos literários do século XIX que cultivaram esse comportamento?
Habilidade trabalhada: Relacionar os modos de organização da linguagem às escolhas do autor, à tradição literária e ao contexto.
Reposta Comentada: “Lima Barreto é consciente de nossos verdadeiros problemas, ao mesmo tempo que critica o nacionalismo ufanista, exagerado, utópico, herdado do Romantismo. Por outro lado, o estilo de Lima Barreto, tão duramente criticado pelos ainda parnasianos de sua época, é outro ponto de contato com o Modernismo: é leve, fluente, propositadamente frouxo para os padrões do final do século XIX, aproximando-se da linguagem jornalística, estilo que faria escola entre vários autores após 1922”(Nicola) . O autor busca em estilo próprio, organizar seu romance de modo a atender às expectativas de uma classe excluída até então do crescimento cultural. Do lugar social que ocupa, tem visão privilegiada da realidade, a qual lhe permite questionar a política, a educação e as relações sociais: por isso traz para a discussão literária a vida dos subúrbios cariocas. É um patriota que defende o valor de todo o país e sua gente. Após o comentário, o professor pode, de forma bem resumida, gabaritar a questão acima, assim: a) O nacionalismo exagerado. b)  O Romantismo e o Parnasianismo.

QUESTÃO 5:
Lima Barreto foi um autor marcante na abordagem dos problemas sociais. O texto opõe a condição humilde de muitas pessoas e a afetação dos mais ricos, cercados de pompa, de beleza e do glamour de inspiração europeia. Diante disso, reflita sobre a desigualdade social e responda às seguintes questões:

  1. Como é apresentada a paisagem do subúrbio carioca?

  1. Identifique, no último parágrafo, as características relativas aos mais ricos e aos mais pobres e sua relação com o espaço do subúrbio carioca na visão de Lima Barreto.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 6:
Os marcadores discursivos são elementos linguísticos que fazem referência a partes do texto, podendo englobar o foco no conteúdo da oração ou na intenção de quem fala. Podem ser representados por expressões de modalidade, constituídas por advérbios, conjunções, verbos modais, modos do verbo, marcadores de foco, etc. No cotidiano, podem ser representados por adjuntos adverbiais como “Certamente, estudarei Pré-Modernismo hoje”, em que “certamente” está revelando um programa definido para estudar.
No capítulo “Espinhos e flores”, de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, Lima Barreto apresenta a estrutura do subúrbio em “A topografia do local, caprichosamente montuosa, influi decerto, mais influíram, porém, os azares das construções”. Nesse trecho, os termos “caprichosamente” e “porém” podem ser substituídos, sem prejuízo de sentido, por:
(A) principalmente, também
(B) geralmente, portanto
(C) naturalmente, contudo
(D) calmamente, entretanto
TEXTO GERADOR III

Em suas crônicas, Lima Barreto trata do cotidiano, refletindo sobre política, sociedade, economia, educação, cultura, costumes sociais e, principalmente, a situação do Rio de Janeiro. Em “As enchentes”, texto escrito em 1915, o autor aborda as enchentes e sua repercussão nas comunicações, nos imóveis e no tráfego urbano. Posteriormente, comenta sobre a engenharia carioca e dá sua opinião sobre como essa questão foi tratada pelo então prefeito Pereira Passos.
As enchentes
As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas.
Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis.
De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema.
O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar à mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral. Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha!
Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão.
O Prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.
Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações.
Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.
(Lima Barreto)
Vocabulário:
Tráfego – trânsito.
Square – praças, áreas (cercadas de ruas), quadras.
Procrastinar – deixar para outro dia, adiar.
Precipitações atmosféricas – expressão relativa à quantidade de chuva caída.
Fachadas – vocábulo relativo à frente do edifício.

ATIVIDADE DE USO DA LÍNGUA
QUESTÃO 7:
Leia o trecho a seguir:

“De há muito que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.”


O período acima destacado pode demandar certo esforço de compreensão por parte de alguns leitores, devido ao uso de expressões e/ou elementos não tão usuais nos textos escritos atualmente. Uma maneira de diminuir esse esforço de compreensão por parte do leitor seria a substituição dessas expressões e/ou elementos por outros mais frequentes na linguagem formal contemporânea – o que tornaria o período mais claro e objetivo. Tendo em vista esse comentário, assinale a única alternativa em que a reescrita, em prol de maior clareza e objetividade, altera o conteúdo semântico original.
a)      Faz muito tempo que a engenharia do nosso município deveria ter se apoderado do dever de evitar esses acidentes urbanos.
b)       A engenharia do nosso município deveria, há muito tempo, ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
c)      Há muito tempo que a engenharia municipal deveria ter se apoderado do dever de evitar tais acidentes urbanos.
d)     Se a engenharia do nosso município há muito tivesse se apoderado de seu dever, evitaria tais acidentes urbanos.
ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 8:
Nessa crônica, o leitor pode perceber fatos, ou seja, informações incontestáveis relativas a acontecimentos da época, e opiniões, isto é, expressões do ponto de vista do autor. Em qual opção abaixo podemos encontrar um exemplo de fato, devidamente destacado no texto?
(A) “Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia” (4º parágrafo)
(B) “Que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas” (8º parágrafo)
(C) “Essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis” (2º parágrafo)
(D) “O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos” (5º parágrafo)
TEXTO GERADOR IV

Nesse texto, João do Rio, seguindo a linha que o consagrou como cronista e repórter de sua época, vai à rua para observá-la, analisar seus tipos mais comuns, dedicando especial atenção à fala do malandro carioca. A frase “-E eu, nada”, que se repete ao longo de todo o texto, não representa a fala de um personagem específico em uma situação narrativa determinada. Trata-se, na realidade, de uma expressão de muita versatilidade, utilizada em contextos distintos e com as mais variadas significações e, por isso mesmo, admirada pelo enunciador.
O dito da “rua”
Há agora pelas ruas da cidade um novo dito do populacho. Esse dito é ouvido em cada canto e não exprime particularmente coisa alguma. É antes uma das mil faces da irreverência arrogante da canalha. O malandro para, ginga, diz mordaz:
– E eu, nada?
É a sarjeta impondo-se, é o riso despreocupado do garoto estabelecendo por troça o seu alto lá! invasor de último estado prestes a liquidar os superiores. Nada mais irônico, de chocarrice mais áspera. O cavalheiro conta uma mentira e sente a interrupção corrosiva: – E eu, nada? O cavalheiro leva uma conquista, e por trás ou de cara desnorteia-o a frase: – E eu, nada? O cavalheiro ganha ao jogo, esbraveja, tem sorte, deplora-se, elogia-se. A frase vem como o obstáculo: – E eu, nada?
E eu, nada? para todas as coisas pergunta camaleão, último grito da língua verde e do calão!
E eu amo o calão. Propriamente, cada classe social tem o seu calão como as profissões o têm, original e exclusivista. Um idioma é uma floresta extensa com uma infinita variedade de espécies botânicas. (...)
Como, porém, há calão e calão, o da canalha é para mim muito mais curioso pela dose admirável de psicologia latente e pela maneira por que se impõe. O número, a quantidade, assoberbam fatalmente e obrigam o domínio do calão canalha. Não há memória de uma frase, de um qualificativo de salão que chegue à rua sem perder a significação. A ralé invade tudo com esse turbilhão de qualificativos e de frases que tudo exprimem, e nascem, morrem, brotam em novas frases, incessantemente. Nos ditos que correm as ruas verifica a gente que as cidades ainda são verdadeiras moradas da alegria... (...)
“E eu, nada?” é uma frase que pinta um gesto, uma situação, um momento. O reverso desta formidável época de avanço não pode ser outro senão a indagação de alto lá! irônica e debochativa: “E eu, nada?” (...)
A frase pode ser a divisão de metade maior, como dizem as crianças, quando pedem a repartição de um bolo, porque a humanidade sempre se dividiu numa parte que come, e na outra que espera a vez. A que espera a vez está mesmo a dizer o “– E eu, nada?”
Frases tais valem por poemas e por tratados de sociologia. Quem a fez? ninguém sabe. Nascem do anônimo, o anônimo fá-la saltar ao ar de toda a parte, por todos os cantos, e agora, no Rio, cidade de ambições desvairadas, de riso, de troça, de luxúria, para todas as coisas, só há uma frase: “– E eu, nada?” pergunta camaleão, último grito dos sem vintém, da língua verde e do calão!
(João do Rio)
Vocabulário:
Canalha – pessoa traiçoeira, má.
Sarjeta – lugar, situação ruim.
Chocarrice – gracejo atrevido e grosseiro.
Corrosiva – aquilo que corrói, destrói.
Esbravejar – berrar, gritar.
Deplorar – lamentar, lastimar.
Calão – linguagem especial, peculiar.
ATIVIDADE DE LEITURA
QUESTÃO 9:
O texto literário reflete o contexto sociocultural de sua época. No caso do Pré-Modernismo, a valorização do popular foi uma prática inédita até então e tem em João do Rio seu grande representante. Sendo assim, suas crônicas possuem um caráter mais jornalístico. Em “O dito da rua”, por exemplo, não há uma história, com início, meio e fim; mas a construção de comentários sobre um fato. Baseando-se nesse texto, responda às questões abaixo.
a)      Identifique os seguintes elementos:
Ø  Fato:
Ø  Quando o fato ocorre:
Ø  Onde o fato ocorre:
Ø  Quem está envolvido no fato:

b)      Como o enunciador se posiciona diante deste fato: de forma positiva ou negativa? Justifique sua resposta transcrevendo uma passagem do texto.
ATIVIDADE DE PRODUÇÃO TEXTUAL
QUESTÃO 10:
Os textos lidos neste roteiro são exemplares do Pré-Modernismo brasileiro. Considerando que outras produções também se destacaram, em quatro grupos, desenvolvam uma pesquisa sobre autores da prosa pré-moderna e obras desse período: Graça Aranha – Canaã; Euclides da Cunha – Os Sertões; Lima Barreto – Triste Fim de Policarpo Quaresma; Monteiro Lobato - Urupês. Com as informações levantadas, preparem um seminário, contemplando os seguintes tópicos:
a)      Características próprias de cada autor;
b)      Obras mais relevantes de cada autor no período pré-modernista;
c)      Breve resumo da obra lida pelo grupo com análise do estilo do autor;
d)     Trabalhos artísticos e produtos culturais inspirados por essas obras - intertextualidade;
e)      Aspectos socioculturais brasileiros presentes nas obras;
f)       Relevância e/ou atualidade das obras.

Comentário: A divisão da classe em grupos, por autores, e a responsabilidade por uma obra específica do autor, pretende oportunizar à classe  uma ampla pesquisa sobre o pré-modernismo e o aprofundamento. O trabalho deverá conter uma parte escrita - com capa, introdução, dados específicos do autor, resumo da obra, contexto histórico e conclusão da equipe que deverá ser entregue ao professor para avaliação – e a apresentação para a turma e convidados, seguindo as orientações para a realização de um seminário.

Justificativa:

Foram acrescentadas duas questões uma de leitura e outra de uso da língua. A questão de Leitura visa estabelecer relação com os movimentos literários antecedentes e suas características evidenciando o estilo do autor. A questão de Uso da Língua pretende levar o aluno a empregar corretamente os marcadores discursivos, a fim de que desenvolva a habilidade de fazer escolhas semânticas adequadas ao contexto que deseja expressar. A questão de produção textual foi simplesmente adaptada para atender à produção de um seminário a partir do conteúdo proposto no 1° ciclo do bimestre. Ao pesquisar, resumir, estruturar uma apresentação de trabalho, constrói-se um conhecimento que permanece